Cristiane Fonseca Piller e Lucemar Piller são sócios da Casa de Carnes Unidos, que oferece assados diariamente e atrai clientes de toda a região
Próximo das 11 horas, os clientes já disputam espaço entre os balcões refrigerados da Casa de Carnes Unidos. Aos domingos, o movimento se intensifica. Alguns chegam com listas de compra em busca de carnes nobres e cortes especiais. Outros são atraídos pelos assados do dia.
O que todos têm em comum é a disposição de atravessar a cidade — e até os limites entre os municípios — em busca da experiência que transformou o açougue da avenida Mandacaru em uma das marcas mais lembradas do segmento na cidade.
A trajetória começou em 1997, quando Lucemar Piller, então colaborador de um açougue, recebeu a oportunidade de comprar a unidade de um dos proprietários. Ao lado da esposa e sócia, Cristiane Fonseca Piller, assumiu o negócio e criou a Casa de Carnes Unidos, apostando em um posicionamento com foco em qualidade e atendimento.
Durante 19 anos, a empresa funcionou no primeiro endereço da avenida Mandacaru, mas com o aumento expressivo da clientela, foi preciso transferir o negócio para outro ponto da avenida, onde funciona há quase uma década.
Hoje, a movimentação intensa faz parte da rotina da empresa e confirma a força da marca. “O cliente quer ser bem atendido e levar um produto que realmente entregue qualidade”, resume Piller.
A Casa de Carnes Unidos construiu uma experiência de consumo. O símbolo disso está nos assados preparados diariamente. Frango recheado, galeto, carnes bovinas, torresmo e variedade de acompanhamentos prontos facilitam a rotina do consumidor. Lá os assados representam 40% do faturamento.
A estratégia ajudou a fortalecer a identidade da marca e ampliar a conexão com os clientes, que encontram não apenas conveniência, mas acolhimento e confiança.
Em vez de manter a equipe apenas atrás do balcão, os colaboradores circulam pelo espaço, conversam com os clientes, explicam os cortes e orientam sobre preparo e cocção. “Às vezes o cliente quer experimentar um corte novo, mas não sabe preparar. Então a gente orienta, explica e acompanha”, conta.
Essa construção da experiência também passa pela busca por inovação. A empresa investe em equipamentos, processos e técnicas de preparo para garantir padrão de qualidade, maciez e sabor. “É preciso ter excelência em tudo o que faz: atendimento, qualidade, inovação e relacionamento. É isso que mantém a marca na memória das pessoas”, pontua.
O sabor da familiaridade

Tania Ferreira e Diogo Augusto Leite, da Padaria Cerro Azul: empresa ampliou conceito e hoje reúne restaurante, cafeteria e atendimento de eventos
Para Tania Ferreira, essa conexão foi construída por meio de uma combinação de propósito, consistência e entrega de valor. “Uma marca forte é resultado de um processo contínuo. Ela cria reconhecimento, gera confiança e estabelece conexões”.
O que começou como uma padaria de bairro evoluiu para um centro gastronômico que reúne restaurante, cafeteria, atendimento para eventos e estrutura para quem deseja permanecer, e não apenas passar.
A mudança acompanhou um movimento observado no setor. Hoje, além da qualidade dos produtos, fatores como conveniência, ambiente e acolhimento influenciam as escolhas do público.
Ainda assim, algumas características permaneceram. A proximidade no atendimento, a atenção aos detalhes e o cuidado com cada interação continuam sendo parte da identidade da empresa. Essa relação, segundo Tania, é um dos principais ativos da marca. “Quando existe proximidade emocional, a recomendação acontece naturalmente”, observa.
A evolução também trouxe investimentos em comunicação, presença digital e modernização dos ambientes. “A inovação ideal não apaga o passado. Ela utiliza essa história como base para sustentar o crescimento”, resume.
Conexão

Guga Azevedo e Sandra, da Sandra Tortas: empresa investe em novas embalagens e canais de atendimento e sabores, mas mantém os produtos que fazem sucesso desde o início
Em 1994, Sandra começou a produzir bolos e tortas de forma artesanal sem imaginar que se tornaria referência no setor em Maringá e região. O status foi alcançado com a ‘presença’ constante e marcante em aniversários, encontros familiares e celebrações que ajudam a compor a memória de diferentes gerações de clientes. “Não existe melhor publicidade do que a feita pelo próprio cliente. Temos o privilégio de fazer parte de momentos felizes da vida das pessoas e isso cria uma conexão forte com a marca”, afirma o diretor Guga Azevedo.
Para preservar essa relação, a empresa manteve um atributo que não se mede em números: a atenção aos detalhes. “O cliente percebe quando existe carinho em cada etapa do processo, não apenas no produto final”, destaca.
Mas foi preciso acompanhar as transformações do mercado e dos hábitos de consumo. Novas embalagens, canais de atendimento ágeis, estratégias de comunicação e até o uso de inteligência artificial passaram a fazer parte da operação. “Temos produtos que estão entre os mais vendidos desde o início da empresa. O segredo é modernizar a experiência sem perder aquilo que os clientes valorizam”, afirma.
Com clientela majoritariamente feminina, a empresa apoia uma equipe amadora de vôlei feminino de Maringá, porque mais do que incentivar o esporte local, a iniciativa reforça a proximidade com as pessoas que fazem parte da trajetória da empresa, fortalecendo laços que se estendem além do balcão.
Para Guga, marcas relevantes são aquelas capazes de colocar o cliente no centro de suas decisões. “É preciso entender suas necessidades, acompanhar mudanças e comunicar de forma clara como a empresa pode fazer parte da sua vida.”
Sem perder a identidade

Giovanni Brescansin Cantagalli, da Crivialli, que conta com 13 marcas: “independentemente se paga caro ou barato, o consumidor quer um produto que cumpra o que promete”
O grupo começou com apenas dois produtos: o Removedor Perfecto Removex e o amaciante Soft Plus. Hoje, administra um portfólio com 13 marcas, entre elas H2O, Facille, Perfecto e Free Way.
Para o diretor comercial Giovanni Brescansin Cantagalli, o maior desafio está em manter a identidade de cada marca sem perder o direcionamento estratégico do grupo. “Com muitas marcas, precisamos definir o tempo todo onde investir e como fazer isso”, afirma.
Em um mercado onde as decisões de compra acontecem em poucos segundos diante da gôndola, embalagem, posicionamento e branding precisam transmitir com clareza o que o produto entrega e quais vantagens oferece ao consumidor.
Se antes a escolha era guiada majoritariamente pelo preço, hoje a confiança ocupa um espaço decisivo. “Independentemente se paga caro ou barato, o consumidor quer um produto que cumpra o que promete”, explica.
Qualidade, disponibilidade e entrega constante formam a base de uma relação duradoura. Na visão do diretor comercial, tradição e inovação precisam caminhar juntas. “A tradição mostra como a marca foi construída. A inovação mostra como ela quer ser no futuro.”
Foi essa leitura de futuro que levou a empresa a promover o rebranding da linha H2O. Segundo Giovanni, a percepção de que o consumidor havia mudado acendeu o alerta de que a marca precisava evoluir. Foram dois anos de estudos e planejamento até a reformulação ser colocada em prática. “Foi como se uma nova marca estivesse nascendo”, define.
O caso evidencia um dos dilemas do branding: até que ponto é possível mudar sem romper a conexão com o consumidor? Para Catagalli, existem rebrandings sutis e disruptivos. No primeiro caso, preservar elementos reconhecíveis é fundamental para manter a fidelidade do público. No segundo, como aconteceu com a H2O, a ruptura pode ser necessária para permitir novo posicionamento.
Ainda assim, ele reforça que nenhuma transformação deve acontecer sem escuta e análise profunda do consumidor. “É preciso entender quais pontos ele considera importantes para que a marca não perca a conexão.”
Reposiconamento

“Não basta ser muito bom. Tem que parecer muito bom”, diz Maíra Oliveira, da Dzigna Branding, que conduziu o rebranding da própria empresa
“O negócio amadurece, evolui, muda de público e amplia sua atuação. Quando a marca não acompanha esse movimento, surge a necessidade do rebranding”, explica a diretora Comercial e de Relacionamento, Maíra Oliveira.
Foi assim que surgiu a Dzigna Branding. Mais do que estética, a transformação foi estratégica. “Nosso trabalho sempre esteve ligado à construção de marcas, propósito e posicionamento. A mudança veio para consolidar essa percepção e expressar com mais clareza quem somos hoje”, afirma.
“Um bom produto pode ser facilmente copiado ou cair em uma disputa de preço. Já uma marca estruturada cria lembrança, gera identificação e constrói percepção de valor”, explica.
Segundo ela, muitos empresários ainda associam branding apenas ao logotipo, quando, na verdade, o conceito envolve posicionamento, narrativa, experiência, tom de voz, cultura e coerência entre discurso e prática. “Não basta ser muito bom. Tem que parecer muito bom”, resume.
Em um cenário marcado pelo excesso de informação e pela forte presença digital, Maíra acredita que as marcas relevantes conseguem manter clareza, autenticidade e consistência.
Na prática, os sinais de que uma empresa precisa reposicionar a marca costumam aparecer na dificuldade de diferenciação, na comunicação genérica, na disputa excessiva por preço e na sensação de que a marca já não representa mais o momento atual do negócio.
Ainda assim, ela alerta que um rebranding exige profundidade e estratégia. “A mudança não pode apagar a história da empresa. Ela precisa evoluir a percepção da marca sem romper a conexão com o público.”
Confiança vira marca

Adenilson Coli Vieira, do Grupo Colli: “quando o cliente percebe que nosso foco é o sucesso da obra dele, a confiança se fortalece”
Afinal, reformar ou construir envolve escolhas que vão além da estética, porque carrega expectativas, investimento e o desejo de ver um projeto sair do papel.
Para o diretor Adenilson Coli Vieira, uma marca forte nasce da combinação entre proximidade, confiança e compromisso com aquilo que se entrega. “Não vendemos apenas produtos. Fazemos parte da realização de sonhos e do desenvolvimento da nossa cidade”, afirma.
Segundo Vieira, o consumidor que entra em uma das lojas da rede procura orientação, segurança e a certeza de que está fazendo a escolha correta. Por isso, o atendimento consultivo tornou-se um dos principais pilares. A aposta na capacitação constante da equipe e no acompanhamento do cliente mesmo após a venda ajudou a consolidar a reputação.
“Quando o cliente percebe que nosso foco é o sucesso da obra dele, evitando desperdícios e garantindo o melhor resultado, a confiança se fortalece”, explica.
Mas a empresa aprendeu que marcas sólidas precisam evoluir com o consumidor. Mudanças no comportamento de compra, avanço das plataformas digitais e novas demandas do mercado impulsionaram transformações na comunicação, nos ambientes das lojas e na forma de se relacionar com o público.
A fórmula, segundo o diretor, está em preservar a essência enquanto se renovam as formas de entrega. “O que muda é a maneira como nos comunicamos, nos apresentamos e atendemos as novas gerações.”
Em um setor onde preço e produto são apenas o ponto de partida, a força da marca passa pela capacidade de oferecer segurança. Afinal, quando a confiança é construída, ela se torna um dos ativos mais duradouros e valiosos de qualquer negócio.
Marca é estratégia, não estética
Ainda é comum encontrar quem associe marca apenas à identidade visual. Mas, para Alexandre Nami, da agência Brandigno, essa é apenas a parte mais visível de um trabalho profundo. “Branding não é design. É uma decisão de negócio construída diariamente”, afirma. Segundo ele, construir uma marca significa definir quem a empresa é, qual espaço pretende ocupar no mercado e como deseja ser percebida pelo público. É um processo que envolve propósito, posicionamento, experiência, comunicação e consistência.
Na prática, a força de uma marca impacta diretamente os resultados do negócio. Ao longo de mais de duas décadas de atuação, Nami acompanhou empresas que aceleraram significativamente seu crescimento após passarem a tratar a marca como um ativo estratégico. Em alguns casos, mudanças de posicionamento, identidade e embalagens abriram portas para novos mercados e ampliaram o faturamento em poucos meses.
Para ele, o erro mais comum é enxergar branding como custo e não como investimento. “Muitas empresas investem em marketing e propaganda antes de construir uma base sólida de marca. Isso dispersa recursos e reduz a eficiência das ações”, explica.
O especialista defende que o posicionamento deve ser pensado desde o nascimento da empresa. “Marca é base de crescimento. Quando existe clareza sobre quem a empresa é e qual valor entrega, todas as decisões passam a seguir a mesma direção.”
Esse trabalho, segundo Nami, passa por quatro pilares: clareza, posicionamento, expressão e consistência. Primeiro, é preciso compreender o que a empresa oferece. Depois, definir o que a diferencia da concorrência. Só então entram elementos como identidade visual, comunicação e design. Por fim, vem a consistência — a capacidade de repetir, ao longo do tempo, a mesma promessa e experiência.
Propósito e autenticidade também ganharam peso. “As pessoas se conectam com marcas que representam algo. Quando isso acontece, elas deixam de ser apenas clientes e se tornam defensoras.”
Ao ser questionado sobre o momento ideal para investir em branding, Nami é direto: “O momento certo é antes do seu concorrente.”

