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Dependência química e compulsões no ambiente de trabalho

Dependência química e compulsões no ambiente de trabalho

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Renata Eugênio Dias, do Fábio Pneus Autocenter, ofereceu apoio, oportunidade de recomeço e encaminhou colaboradores com dependência para tratamento
A ausência frequente de um funcionário, a queda repentina de produtividade ou mudanças bruscas de comportamento costumam ser interpretadas, em um primeiro momento, como problemas de disciplina ou comprometimento. Mas podem esconder realidades complexas. Dependência química, alcoolismo, compulsão por jogos, apostas online, sexo, internet e outros comportamentos aditivos podem ultrapassar a esfera da vida privada e gerar impactos diretos nas empresas. Se a situação não for conduzida adequadamente, a empresa também pode enfrentar consequências jurídicas e trabalhistas, como processos por danos morais, pedidos de reintegração e questionamentos sobre demissões. 

Conforme dados do Ministério da Previdência Social, foram concedidos em 2025 pela Previdência Social no Brasil 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, que englobam, além de episódios depressivos e ansiosos, transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de múltiplas drogas e ao uso de outras substâncias psicoativas; ao uso de álcool e de cocaína. 

Um dos principais desafios das empresas é encontrar equilíbrio entre acolher o trabalhador e preservar o negócio. Renata Eugênio Dias, sócia do Fábio Pneus Autocenter, é um exemplo disso.

Ao longo dos anos, integrantes da equipe apresentaram problemas relacionados ao uso de cocaína, crack e, principalmente, álcool. Segundo Renata, uma das experiências mais marcantes envolveu um colaborador dependente de álcool, que passou três anos alternando períodos de recuperação e recaídas. “Quando estava sóbrio, trabalhava normalmente, tinha bom relacionamento e desempenhava as funções sem dificuldades. Mas bastava um conflito familiar ou problema emocional que o ciclo recomeçava. Ele pedia demissão, desaparecia e voltava meses depois em uma situação difícil. Muitas vezes estava sem casa, sem apoio da família e sem estrutura”, lembra Renata. 

A história se repetiu várias vezes. Em vez de fechar as portas, a empresa ofereceu nova oportunidade. “Era uma pessoa boa. Como gestor, você acredita que daquela vez vai dar certo”, conta. Sobre outro caso, envolvendo outras drogas, ela lembra que um funcionário ficou irreconhecível em questão de dias. “Perdeu peso, rompeu relações familiares e ficou sem dinheiro.”

A empresa buscou alternativas. Em diferentes momentos, foram organizadas campanhas internas para auxiliar colaboradores com alimentação, moradia e encaminhamento para tratamento. “Conseguimos vagas gratuitas em clínicas de recuperação, participamos de programas de apoio a dependentes químicos e articulamos o encaminhamento de alguns funcionários para tratamento. Ao longo dos anos, nem todos aderiram, mas alguns aceitaram e conseguiram se recuperar.” 

No dia a dia, o principal impacto era entre os demais colaboradores. “Os colegas ficavam sobrecarregados. Eram muitas faltas, atrasos e dificuldades para cumprir as tarefas. Em alguns momentos, eles se revoltavam por terem de assumir responsabilidades extras. Mas, por segurança própria, dos colegas e dos clientes, não havia como manter o colaborador com problemas em funções operacionais. Foram episódios desafiadores.” 

A empresa sempre tratou a situação como questão de saúde, conta com assessoria jurídica e montou programa interno para apoio e informação sobre doenças e compulsões. “Entendemos que estamos falando de pessoas doentes. Nunca pensamos em justa causa. Quando houve desligamento, sempre foi por iniciativa do colaborador e ocorreu com todos os direitos garantidos”, relata. 

 

Papel da liderança

 Segundo a psicóloga organizacional e clínica Tamiris Emily Peres Fischer, os sinais de dependência ou sofrimento emocional costumam aparecer antes de uma crise se instalar. “Queda de desempenho, atrasos, faltas recorrentes, dificuldade de concentração, alterações de humor, isolamento social e conflitos interpessoais podem indicar que o colaborador está enfrentando sofrimento”, alerta. 

Contudo, Tamiris explica que não cabe à liderança fazer diagnósticos, mas oferecer ajuda. “Nem sempre o problema aparece de forma explícita. Muitas vezes, o gestor percebe apenas queda de produtividade, distração constante, endividamento, instabilidade emocional ou conflitos. É nesse momento que entra o acolhimento, que não deve ser confundido com permissividade.” 

Em situações graves, como surtos ou crises emocionais, a orientação é agir rapidamente, mas sem exposição. “A primeira medida é preservar a segurança da pessoa e dos demais colaboradores. O ideal é conduzi-la para um ambiente reservado, evitar discussões e acionar profissionais preparados, como indicação para o setor de gestão de pessoas, se houver, e orientação para procurar serviços de saúde ou grupos de apoio.”

Jogos eletrônicos, apostas online, compulsões sexuais e uso excessivo de dispositivos digitais também podem comprometer desempenho e relacionamentos. Para a psicóloga, a prevenção continua sendo o caminho mais eficiente. “Quanto mais preparada a organização estiver para identificar sinais precoces, menores serão os impactos sobre a saúde do trabalhador e os resultados da empresa.”

 

O que diz a legislação

A advogada previdenciarista Sheyla Graças de Sousa Borges de Liz afirma que muitos empresários ainda enxergam a dependência apenas sob a ótica disciplinar, o que pode gerar problemas trabalhistas e previdenciários. Em casos de incapacidade laboral, o trabalhador pode ser encaminhado para avaliação médica e, eventualmente, para afastamento previdenciário. “Cada situação precisa ser analisada. Nem todo problema comportamental gera afastamento, assim como nem toda situação pode ser tratada apenas como falta disciplinar”, pontua. 

Segundo a especialista, a principal recomendação é trabalhar com objetividade. “A empresa deve registrar atrasos, faltas, acidentes, descumprimento de normas e situações de risco. O foco precisa estar no comportamento observado, não em julgamentos”, diz. 

Sheyla chama atenção para a nova Norma Regulamentadora nº 1, a NR-01, que ampliou a atenção aos fatores psicossociais relacionados ao trabalho. “Hoje, a discussão sobre segurança não envolve apenas máquinas e equipamentos. Inclui saúde mental, clima organizacional, pressão excessiva, jornadas inadequadas e preparo das lideranças.”

 

 

“Já não estava bebendo apenas nos finais de semana”

 Há cerca de 40 anos sem consumir bebidas alcoólicas, Carlos (nome fictício) lembra do período em que a doença começou a interferir em sua vida profissional, quando tinha menos de 30 anos. No início, o álcool aparecia apenas nos finais de semana e estava associado a momentos de lazer. “Lembro de ter começado a beber para me sentir mais à vontade. Parecia algo normal, mas já atrapalhava. Com o passar do tempo, a frequência aumentou. Quando percebi, não estava bebendo apenas nos finais de semana.”

As consequências demoraram a ser percebidas por ele, mas tornaram-se evidentes para os colegas de trabalho. “Minha produtividade caiu, meus relacionamentos foram afetados e comecei a perder o controle em situações que antes eram simples.”

A mudança começou quando ele reconheceu que havia um problema e buscou ajuda nos Alcoólicos Anônimos (AA). O acolhimento foi fundamental. “Ninguém julga. Você encontra pessoas que passaram por dificuldades e entendem o que está acontecendo.” 

Os encontros são gratuitos, voluntários e baseados no compartilhamento de experiências, sem a presença de profissionais como parte da estrutura do grupo. O programa propõe um processo de reflexão, reconhecimento da dependência, reparação de danos e construção de uma nova rotina sem o consumo de álcool. O anonimato é um dos princípios.

Atualmente, Carlos apoia o AA em ações de conscientização e acredita que as empresas podem desempenhar um papel importante na prevenção. Segundo ele, o grupo oferece palestras em organizações para informar e desmistificar o alcoolismo. As empresas interessadas podem obter informações no site do AA.