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De malas prontas para aprender

De malas prontas para aprender

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“Procuramos proporcionar a permanência em uma única casa para que o estudante adquira senso de responsabilidade e fortaleça relacionamentos”, explica Vanderlei Cirino, do AFS

O ano era 1914 e o contexto de Primeira Guerra Mundial. Foi na época que surgiu aquela que viria a ser a primeira ONG de intercâmbio que se tem conhecimento. O motivo das viagens, no entanto, era diferente da atualidade: em vez de estudos, experiências profissionais e trocas culturais, a razão era humanitária. “Jovens voluntários entravam nos campos de batalha como motoristas de ambulância, independentemente da nacionalidade ou cultura”, explica o presidente do Comitê AFS (American Field Service) em Maringá, Vanderlei Cirino.

O trabalho, que foi retomado na Segunda Guerra Mundial, mudou de característica no pós-guerra. “Um grupo de veteranos do AFS percebeu a necessidade de promover o entendimento e a irmandade internacional para diminuir a intolerância entre os povos e decidiu que a melhor forma de fazer isso era por meio de experiências de imersão cultural. Assim, em 1947, surgiu o AFS Intercultural Programs, a maior organização de intercâmbio cultural do mundo”, afirma. Desde então, a entidade foi responsável pelo intercâmbio de milhares de pessoas, entre os quais o recém-eleito presidente do Chile, Gabriel Boric, que aos 16 anos foi intercambista na França, e o ex-presidente da Colômbia César Gaviria, que foi estudar nos Estados Unidos.

Com sede mundial em Nova Iorque e presente em mais de 60 países, o AFS, sem fins lucrativos, chegou no Brasil em 1956 e já enviou e recebeu 14 mil intercambistas. A sede fica no Rio de Janeiro e apenas lá existem funcionários para organizar os aspectos burocráticos e operacionais. Nas mais de cem cidades brasileiras em que o AFS opera, o trabalho de orientação e apoio aos estudantes e às famílias é feito por quase mil voluntários, que na maioria já viajou ou hospedou intercambistas.

O programa mais comum é o ‘High School’, com duração de um ano para jovens entre 15 e 18 anos, mas existem opções mais curtas que podem ser de algumas semanas até um ano, para adolescentes e adultos. Existem ainda programas de aprendizado de idiomas e de estágio não remunerado. “Normalmente trabalhamos com 250 envios do Brasil para o exterior e 250 recebimentos por ano, e um dos nossos diferenciais é que o próprio interessado escolhe o destino, consultando a organização sobre a disponibilidade de vaga”, explica. 

Durante a permanência no exterior o estudante fica em alojamentos ou, no caso do intercâmbio escolar, em casas de família. “Procuramos proporcionar a permanência em uma única casa para que o estudante adquira senso de responsabilidade com o ambiente familiar, fortaleça os relacionamentos e leve a amizade para a vida”, explica. Mesmo assim, em caso de conflitos, é possível trocar de família e, em situações excepcionais, até de cidade.

No AFS não há necessidade que a família do estudante que vai ao exterior seja hospedeira de intercambista nem necessidade de vínculo com a organização. “Encorajamos todos os tipos de família a se cadastrarem. Algumas têm crianças, outras são formadas por casais do mesmo sexo, casais com filhos adultos e ou casais sem filhos. Adultos e pais solteiros também são bem-vindos”, afirma.

Segundo Cirino, assim como fazer intercâmbio, receber um intercambista é uma experiência única, que proporciona troca cultural.  A família interessada em ser hospedeira deve entrar em contato pelo número (44) 99118-8466. Ela será encaminhada para um voluntário, que providenciará uma entrevista. “A obrigação é oferecer hospedagem e alimentação, além de carinho e atenção ao estudante, que na prática será um novo membro da família. Lembrando que a família não é remunerada”, explica. 

A taxa de participação dos programas High School engloba os custos durante a experiência, incluindo a colocação em família hospedeira, alimentação, seguro médico, transporte e material escolar. No entanto, os custos com o transporte aéreo ao destino são de responsabilidade do intercambista, assim como despesas pessoais como roupas e atividades sociais. “Para boa parte dos países da Europa a taxa de participação varia de US$ 7 mil a 10 mil, mas pode chegar a US$ 14 mil para os Estados Unidos ou a US$ 25 mil para a Austrália”, diz. Segundo Cirino, as inscrições para bolsas estão encerradas, mas novas oportunidades podem surgir ao longo do ano.


Países desenvolvidos são preferidos


No Rotary o programa mais procurado é voltado para alunos do ensino médio com destino a países desenvolvidos e duração de um ano, conta  Amaury Couto

Há 15 anos responsável pelos intercâmbios do Rotary no noroeste do Paraná, Amaury Couto acompanha o ‘vai e vem’ de intercambistas. Nos últimos dois anos as atividades ficaram suspensas por conta da pandemia, mas em anos anteriores mais de mil jovens passaram pela experiência em toda a região distrital da entidade. Em Maringá eram em média 21 alunos por ano. “Fazer intercâmbio é uma experiência fantástica que amplia a visão de mundo, muda comportamentos e ajuda na evolução como pessoas e futuros profissionais”, garante.

No Rotary o programa de maior adesão é voltado para alunos do ensino médio, mas existem programas de serviços voluntários e experiências universitárias para pessoas com até 30 anos. A duração varia de um a seis meses para voluntários e universitários, e um ano para estudantes do ensino médio. Para garantir uma vaga é preciso passar por processo seletivo composto por prova de conhecimentos gerais, conhecimentos rotários, redação e língua estrangeira. Em seguida é feito sorteio com os candidatos com as melhores pontuações. “A maioria dos estudantes prefere países desenvolvidos como Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos e Bélgica, embora tenhamos também os países de língua espanhola das Américas, como Argentina, Peru, Equador, Colômbia e México”, afirma.

Para Couto, independente do país, quem faz o intercâmbio valer a pena é o estudante. “É fundamental que o jovem se permita vivenciar a cultura local, compreender os hábitos e experimentar um novo estilo de vida”, diz. Sobre a aprendizagem do idioma local, Couto acredita que essa é uma consequência da vivência, apesar de haver programas específicos para a finalidade.

No Rotary, as famílias que querem enviar estudantes para uma temporada fora do país precisam desembolsar de US$ 2 mil a 6 mil, e são convidadas a receber intercambistas em suas casas. A hospedagem na modalidade escolar é feita em casas de famílias e, ao longo de um ano, a previsão é que o aluno passe por dois ou três endereços. “O intercâmbio é algo que vai além do estudante e transforma a família e comunidade”, declara. 


Oportunidade para adultos 


Aos 43 anos, Ricardo Azenha passou um mês no Canadá para aprimorar inglês; a família dele já recebeu intercambistas da Costa Rica, Itália, México e Peru

Professor universitário na área de Gestão, Ricardo Azenha é entusiasta dos intercâmbios. Além de já ter recebido em casa intercambistas da Costa Rica, Itália, México e Peru, em 2015, aos 43 anos, com o apoio da esposa e dos filhos passou 30 dias no Canadá. Ele foi recebido na casa de uma colombiana que estava no país há 40 anos. “Não tive a oportunidade de fazer intercâmbio mais cedo, mas quando pude, não perdi tempo e foi a melhor experiência da vida”, diz ele, que tinha como objetivo aprimorar o inglês. 

Durante o mês que passou fora, conviveu com um adolescente chinês, além de pessoas da Rússia, Índia, Ucrânia, Arábia Saudita e México. “Foi um choque cultural. Pude conhecer, além da cultura do país que estava, hábitos e visões de pessoas de diferentes partes do globo. Isso não tem preço”, diz. 

Azenha ficou hospedado em Toronto e enfrentou temperatura negativa de 27ºC. “São muitas situações diferentes do Brasil, desde fatos pequenos como as lojas não exporem os preços dos produtos, como diferenças na forma de viver. Lá existem regras claras e placas informando o valor da multa em caso de infrações”, diz. 

Para viver a cidade e sentir a cultura, Azenha fazia questão de andar a pé, de ônibus e metrô. “Todos os dias eu estudava das 9 às 15h e depois ficava livre para explorar a cidade”, conta. 


Intercâmbio virtual


UEM criou intercâmbios virtuais sem custos; “pudemos ter contato com pessoas que talvez não teríamos se dependêssemos exclusivamente do contato presencial”, diz Marcio Cassandre 

Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), a pandemia limitou o envio e o acolhimento de estudantes internacionais de forma presencial, que acontecem em todos os níveis: graduação, pós-graduação (especialmente programa de residência profissional), mestrado e doutorado. No entanto, novas estratégias e ferramentas foram desenvolvidas para que os estudantes pudessem ter a experiência dentro da universidade. “A mobilidade virtual foi uma delas, mas outras oportunidades foram criadas e agora se tornam definitivas, tal como os intercâmbios virtuais de aprendizagem, os Collaborative Online International Learning (COIL), que promovem a aproximação das fronteiras via trocas remotas, geralmente, sem custos aos estudantes”, afirma o coordenador do Escritório de Cooperação Internacional (ECI) da UEM, Marcio Cassandre.

“Se antes tínhamos a limitação dos custos para as trocas entre estudantes e pesquisadores de outros países, hoje pela via remota esses intercâmbios são possíveis. Nos últimos dois anos pudemos ter contato com pessoas que talvez não teríamos se dependêssemos exclusivamente do contato presencial”, garante. 

Segundo os responsáveis pelo setor de mobilidade do ECI, Lilian Berdu e Mayckel Barreto, nos últimos dez anos mais de 700 alunos de graduação participaram da mobilidade acadêmica internacional. Na pós-graduação o número é menor. Entre 2011 e 2016 o número de estudantes da universidade fora do país foi o maior, em decorrência das bolsas oferecidas pelo Programa Ciência Sem Fronteiras, extinto em 2017. “Além do crescimento acadêmico, a mobilidade propicia contato com culturas, lugares e a oportunidade de aprender e praticar línguas estrangeiras. Isso é válido tanto para o aluno que pode sair do país quanto para os demais que convivem, na UEM, com estudantes internacionais”, afirma Cassandre. 

Os candidatos devem ter bom rendimento acadêmico, domínio da língua do país pretendido, demonstrar engajamento com as atividades de pesquisa e extensão e elaborar um plano de estudos para ser cumprido na universidade estrangeira. Em relação aos custos, quando o estudante não participa de programas/projetos que custeiam a mobilidade, ele é responsável pelos custos da viagem e manutenção no país de destino. “O valor varia conforme o país, a duração da mobilidade e o estilo de vida do aluno. Aquele que opta por uma universidade sul-americana terá custo menor do que quem viaja para um país da Europa ou América do Norte”, esclarece. 

Com o envio de estudantes e a presença de alunos internacionais na sede e em seis cidades que possui extensões, a UEM avança no quesito internacionalização. “Essas alianças são importantes para que a UEM se insira no contexto internacional, publique resultados de pesquisa em revistas científicas, promova estudos multicêntricos, desenvolva tecnologias, troque experiências de ensino, pesquisa e extensão e continue avançando em rankings internacionais de avaliação da qualidade”, finaliza.