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Luís Lobão: Consultor e palestrante internacional

Luís Lobão: Consultor e palestrante internacional

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Quem é?

Luís Lobão

O que faz?

Consultor e palestrante internacional

É destaque por?

Especialista em Governança Corporativa e Estratégia Empresarial


Se não mudar o modelo mental, não adianta comprar tecnologia


Desafiadas diariamente a melhorar seu modelo de negócio, as empresas brasileiras têm apresentado desempenho pífio no que diz respeito às transformações digitais. Essa dificuldade, segundo o consultor Luís Lobão, advém dos sistemas de administração herdados das antigas e tradicionais formas de organização humana, como militares e religiosas. 

“Nossas empresas ainda têm uma estrutura organizacional do século passado, quando o modelo de níveis hierárquicos foi criado em 1920. O modelo de gestão baseada no comando e controle está se tornando obsoleto”, alerta Lobão, especializado em Governança Corporativa e Estratégia Empresarial com ênfase em crescimento. 

Ele destaca que tais modelos foram projetados para fins de comando e controle em uma época em que não havia internet, smartphone e nenhuma forma de tecnologia digital, e quando a supervisão pessoal era a única maneira de ficar de olho nos funcionários. Além disso, as organizações não tinham como foco os clientes ou a inovação, mas a concorrência. “A governança corporativa tradicional está ameaçada e precisa responder rapidamente aos requisitos de negócio que esta nova era digital impõe”, destaca Lobão. 

Os desafios da transformação digital, aliás, são temas do seu mais recente livro: ‘A Jornada da Transformação Digital’. Lançada no mês passado, a obra foi escrita em parceria com Carlos Zilli e pretende, de maneira prática, ajudar líderes e empreendedores nesta jornada. 

Além de consultor, Lobão atua como palestrante internacional. Começou a carreira como executivo do Grupo Gerdau, e nos últimos 20 anos tem se dedicado a apoiar as empresas a se tornarem mais competitivas e longevas. No seu currículo constam ainda a experiência como diretor da HSM Educação Corporativa e professor/pesquisador da Fundação Dom Cabral, onde atuou em centenas de projetos do Brasil e exterior.

Qual a importância da inovação no varejo?

Oferecer uma excelente experiência ao cliente de ponta a ponta é uma obrigação. Precisamos colocar o cliente em primeiro lugar, e a maioria das empresas tradicionais tende a ser centrada na concorrência. Elas prestam muita atenção aos resultados financeiros, especialmente no lucro, e acabam presas a um pensamento de curto prazo. É preciso reconhecer que a inovação centrada no cliente é a única forma de prosperar em um ambiente de alta volatilidade como estamos vivendo. Gestores e empresários, em vez de passar a maioria do tempo supervisionando os outros e participando de intermináveis reuniões, deveriam estudar os consumidores e impulsionar a inovação contínua. 

Quais os erros mais comuns na tentativa de incorporar o digital ao negócio?

       O maior erro das empresas é adotar prematuramente a tecnologia sem mudar a cultura. Estou presenciando cada vez mais empresas que compram uma tecnologia e acabam obtendo resultados pífios. Várias compram BI [business intelligence] e as reuniões continuam sem dados e sem análise. Se não mudar o modelo mental, não adianta comprar a tecnologia. A função do líder é aprender a gerenciar as operações do dia a dia usando dados e métricas com ferramentas digitais, aprimorar o julgamento por meio de análise de dados, tomar decisões de alta alavancagem e não de ganhos incrementais, criar equipes multifuncionais críticas com objetivos claros, capazes de inovar e proporcionar uma melhor experiência ao consumidor.

Soluções focadas em tratamento e integração de dados podem gerar inteligência de negócios em todas as áreas. Essa tecnologia tem sido bem empregada no Brasil?

Ainda é pouco difundido no Brasil o uso da inteligência de dados. Precisamos de tecnologia não somente para registro de dados, mas para garantir operações diárias. O sistema de dados e métricas precisa atuar entre ‘silos’ organizacionais, entre camadas, ponta a ponta e em tempo real. Tudo deve ser rastreado, medido e analisado, anomalias devem ser detectadas e decisões rotineiras precisam ser automatizadas. O líder empresarial pode se beneficiar entendendo o sistema de gestão digital, preparando-se proativamente, tornando-se catalisador em vez de uma barreira na digitalização dos processos organizacionais.

E dentro deste cenário tecnológico, como as empresas têm lidado com o capital humano?

A maioria das empresas tradicionais ainda gasta enormes quantidades de dinheiro e esforço em recrutar, desenvolver e reter talentos. Mas continuam limitando sua atuação, impondo processos e modelos que inibem a autonomia e experimentação. 

As empresas brasileiras estão preparadas para oferecer uma experiência diferenciada de compra aos consumidores?

O que é uma experiência de compra? Talvez ainda estamos equivocados com a ideia de que uma experiência é somente algo surpreendente e memorável. É também, mas uma experiência de compra começa com uma jornada sem atrito. Este é o maior desafio das empresas: entender que não adianta tentar fazer algo fantástico se não conseguir entregar uma jornada em que o cliente consiga fazer as coisas de forma simples, rápida, conveniente e, principalmente, sem erros e falhas.

A pandemia mudou o comportamento do consumidor. Como o varejo foi impactado por esta mudança?

A maior mudança é o avanço do omnichannel, as empresas precisam abraçar esta ideia. Precisam ampliar de forma radical seu canal de vendas e permitir uma integração entre os diversos canais. O cliente experimentou, gostou e vai adotar o canal digital como uma opção de compra. Quem não tem uma estratégia digital, tem pouca chance de crescer e talvez até de sobreviver neste ‘novo normal’.

O que mais o varejo precisa fazer para se adaptar ao ‘novo normal’?

Além de estar mais atento ao trabalho de casa, o cliente está consumindo conteúdo nas redes sociais e vendo tutoriais na internet. Talvez esteja fazendo cursos, especializando-se, buscando alternativas para conseguir um novo emprego pós-crise. Ele está buscando novas formas de consumo consciente, talvez descobrindo que não precisa de tanta roupa nova ou que pode reduzir a quantidade de lixo que produz. Então, se a sua empresa ainda não fez nada neste sentido, comece agora. É uma necessidade de sobrevivência conversar com seus clientes pelas redes sociais. Além de focar no e-commerce e no novo padrão de consumo dos clientes, outra estratégia é a valorização de um propósito. Manter uma comunicação positiva e demonstrar empatia serão essenciais.

Em um momento em que se fala tanto em home office, como as empresas podem engajar equipes?

Uma pesquisa realizada pela ADP Research Institute mostra que 29% dos funcionários que atuam remotamente se dizem totalmente engajados, contra 18% que atuam em escritórios. O estudo ouviu quase 20 mil pessoas de 19 países. O problema não é o home office, é o modelo organizacional. Os gestores precisam garantir que o colaborador não se sentirá excluído por estar fora do escritório, nem tão pouco sozinho frente aos desafios. Para isso é importante manter uma comunicação igual a pessoalmente. O gestor deve perguntar como está indo o trabalho, entender os desafios, fazer reunião diária para alinhar processos se necessário, manter-se como se estivesse ao lado do colaborador. A interação entre os profissionais da empresa em grupos também é importante.

Gestores e empresários, em vez de passar a maioria do tempo supervisionando os outros e participando de intermináveis reuniões, deveriam estudar os consumidores e impulsionar a inovação contínua

Qual a importância e o papel da governança corporativa para a reestruturação das empresas?

Destaco três capacidades coletivas que precisam ser incorporadas às competências atuais. Em primeiro lugar, a detecção, que diz respeito à capacidade de identificar com maior rapidez oportunidades e ameaças. Estas devem ser identificadas e moldadas por meio de atividades de varredura, antecipação e interpretação. Aqui estou incluindo toda a parte de Big Data, Analytics e inteligência. Em segundo lugar o domínio, que é a capacidade que diz respeito a tomar as decisões certas e executá-las. Finalmente, reconfigurar, que engloba a capacidade de aprimorar e alterar ativos e estruturas organizacionais à medida que os mercados e as tecnologias mudam. Essas capacidades coletivas são fatores importantes que, separadamente e em combinação, influenciam as decisões estratégicas que os principais tomadores de decisão tomam. Por muito tempo, a governança envolveu práticas e medidas de controle para permitir que as pessoas tomem as melhores decisões para criar o maior valor para a organização e seus acionistas. É uma visão tradicional que precisa ser atualizada para ir além dos aspectos de eficiência e rentabilidade. Para navegar com sucesso nas transições tecnológicas, as empresas podem e devem se beneficiar da exploração dos ativos e da exploração de novas tecnologias, simultaneamente. Nessas situações, os conselhos podem facilitar a ambidestria organizacional ao abraçar o dinamismo e a mudança, em vez da estabilidade e certeza. Desta forma, encorajando a aprendizagem, integrando e transferindo conhecimento, bem como aceitando o fracasso bem-intencionado. Consequentemente, eles colocam as organizações em uma posição melhor para lidar com as transições de negócios e mudanças estratégicas.

Talvez ainda estamos equivocados com a ideia de que uma experiência é somente algo surpreendente e memorável. Uma experiência de compra começa com uma jornada sem atrito. Não adianta tentar fazer algo fantástico se não conseguir entregar uma jornada em que o cliente consiga fazer as coisas de forma simples, rápida, conveniente e, principalmente, sem erros e falhas