Artigos

Terreno fértil à inovação

Terreno fértil à inovação

386
visualizações

Soluções e práticas para problemas reais de mercado. Estas são as fórmulas que têm feito as startups emergirem no Brasil em meio ao cenário de dificuldades econômicas. A criação de pequenas empresas, com ideias tecnológicas e grande potencial de crescimento, tornou-se uma alternativa para empreendedores, principalmente em tempos de hiperdigitalização favorecida pelo crescente potencial dos smartphones e da capacidade de distribuição de dados.

“Os serviços pela internet estão mais acessíveis. A pandemia ajudou a acelerar este processo ao tornar latente problemas existentes e mudar a rotina de milhões de brasileiros. Há quatro anos havia três aplicativos de delivery. Com o isolamento social, surgiram gargalos e eles se multiplicaram”, explica o consultor do Sebrae/PR Nickolas Kretzmann. 

Este cenário de adaptação e aceleração da transformação digital impulsionou a abertura de negócios. Um levantamento recente do Sebrae mapeou 1.434 startups no Paraná, aumento de 39% em relação à edição anterior da pesquisa, que contabilizou 1.039 registros no segundo semestre de 2019. O estado é o segundo com mais startups, atrás de São Paulo, com 3,9 mil, segundo a Associação Brasileira de Startups.No Brasil, são cerca de 13,3 mil. 

O crescimento chama atenção porque 377   startups que participaram do Mapeamento das Startups Paranaenses 2020/21 foram criadas no ano passado. “O Paraná está surfando esta onda e se consolidando como terreno fértil à inovação no país”, afirma o consultor. 

E para isso conta com a colaboração da região noroeste, um dos celeiros de startups e negócios inovadores do interior. O total na região passou de 43, em 2017, para 119, em 2019, e agora chegou a 175 negócios. Kretzmann acredita que o número possa ser ainda maior, já que as respostas ao questionário ocorreram de forma espontânea. 

O centro deste ecossistema é Maringá, a quarta cidade do estado com mais startups, totalizando 105 empresas. Nenhuma surpresa dada à cultura empreendedora e às conexões entre os atores locais. Aqui, os empreendedores encontram espaços e incentivo para criar e desenvolver soluções inteligentes. “O perfil empreendedor é um dos diferenciais da cidade. Outro ponto importante são as condições favoráveis no que diz respeito ao fomento, capacitações, mentorias e espaços de inovação. Por fim, há capital para investimento”, cita o consultor do Sebrae.  

Ele acredita que a condição de polo do setor de tecnologia de informação contribuiu para a ampliação de frentes e a instalação de espaços de inovação, essenciais para o modelo de staturtp. Para quem precisa de ajuda para tirar a ideia do papel, há opções de aceleradoras, incubadoras, habitats de inovação e grupos de investidores. 

“É um ecossistema que, por meio de ações e programas, tem sido provocado para conectar e engajar atores, fomentar o desenvolvimento e potencializar negócios. O Sebrae mesmo tem atuado fortemente neste sentido”, diz Kretzmann.

Nickolas Kretzmann, consultor do Sebrae: “o perfil empreendedor é um dos diferenciais da cidade. Outros pontos importantes são as condições favoráveis de fomento, capacitações, mentorias e espaços de inovação”

Espaço para inovar

Um dos aspectos que contribuem para a aumento de startups em Maringá é a implantação de espaços de incentivo à inovação e a troca de informações como o Inovus. O laboratório fica no segundo piso do prédio da ACIM e, segundo a A5 Arquitetura para Negócios – escritório que assina o projeto -, foi projetado para ser o coração e o cartão de visitas da entidade.  “A ACIM sempre busca soluções para atender os associados. Gestão e inovação são os pilares da atual diretoria, pensando nisso foi criado o espaço Inovus, onde os empreendedores podem se conectar e ter acesso a práticas e conteúdos inovadores. O foco é trabalharmos com inovação empresarial”, destaca a gerente operacional da ACIM, Jacqueline Fenilli, que é responsável pelo Inovus. 

O modelo de negócios foi desenvolvido pela equipe da ACIM a partir da metodologia Sprint. Durante este processo, foram ouvidos especialistas e profissionais, foram realizadas pesquisas e colocadas em prática soluções. 

“Maringá se diferencia por ter um ecossistema de inovação em franca expansão e vem se consolidando nos cenários estadual e nacional. Nosso espaço tem o intuito de contribuir com esse ecossistema e fazer a conexão e inter-relação com a classe empresarial”, explica Jaqueline. 

No Inovus, associados e empreendedores dispõem de ambientes colaborativos, com salas flexíveis. Lá eles têm acesso a treinamentos, capacitações, eventos, experimentação de metodologias e conexão de negócios para gerar novas e melhores oportunidades. “Fomentamos a inovação por meio de práticas de negócios e conteúdos relevantes, atualizados de maneira participativa e ágil para empreendedores de diversos níveis”. 

Dentro os principais produtos, há o programa de ideação: Inovus – Teste sua ideia, onde os empreendedores são conduzidos a uma jornada para tirar boas ideias do papel. A metodologia é inspirada em conceitos de Ideação e Design Thinking, e foi desenhada pela ACIM e Evoa Aceleradora em parceria com o Sebrae.

Na primeira edição, no ano passado, o programa recebeu 36 inscrições e selecionou oito projetos. Os empreendedores selecionados participaram gratuitamente de quatro bootcamps de formação, que ocorreram em novembro. 

Este ano, adianta Jaqueline, “o Inovus lançará o programa de mentorias, trilhas de capacitações de metodologias ágeis e novas edições do programa Inovus – Teste sua ideia, sendo que a primeira deve ocorrer em junho”.

Jacqueline Fenilli, gerente operacional da ACIM: “com o Inovus fomentamos a inovação por meio de práticas de negócios e conteúdos relevantes, atualizados de maneira participativa e ágil”

Aporte de R$ 1 milhão

Foi num espaço semelhante ao Inovus que Matheus Machado Gonçalves encontrou ‘suporte’ para tornar a Quem Contrato realidade. O negócio ‘nasceu’ em um quarto nos fundos da casa dos pais dele e ganhou impulso no Engenium Park, ambiente multidisciplinar para startups da construção civil criado pelo Sinduscon-PR/Noroeste, em parceria com Sebrae e Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Maringá (Aeam).

Gonçalves teve a ideia de criar o aplicativo para aproximar clientes e profissionais após sentir na pele a dificuldade para contratação. Quando cursava Engenharia Civil, ele estagiava numa construtora e intermediava a contratação de terceirizados. “Numa semana precisei contratar 50 pessoas. É muita gente e era difícil de encontrar”.

Em conversas informais descobriu que não era o único. Partiu, então, para uma pesquisa de mercado e a validação da ideia entre os colegas de profissão. “Falei com mais de cem, e foram unânimes em favor de um aplicativo para contratar fácil”.

O passo seguinte foi contratar um programador e detalhar a ideia. “Desenhei a mão, com caneta e papel, o que queria e mostrei para o programador. Depois descobri que o nome disso é UX design, quando se descreve toda a logística do usuário”, revela bem-humorado. 

A “Quem Contrato” surgiu em novembro de 2019 com a proposta de fazer a ponte entre clientes e profissionais, como engenheiros, arquitetos, pintores, encanadores, azulejistas e eletricistas. Dada a demanda, o aplicativo teve rápida aceitação, mas esbarrou na burocracia. 

“Como a ideia era boa, consegui convencer os profissionais rapidamente. O problema estava na parte burocrática, porque era amador e estava aprendendo sozinho. Fiz o aplicativo sem saber nada sobre modelo de negócio. O impulso para a formatação veio quando fui para o Engenium. Lá consegui equilibrar a parte executiva, mapear o negócio e elaborar um modelo interessante para apresentar a investidores”. 

De lá para cá o aplicativo passou por ajustes técnicos e estratégicos, como o clube de vantagem. “Além de divulgar o trabalho, os profissionais têm descontos exclusivos em materiais. E isso por uma mensalidade irrisória”.  

Para o profissional, trata-se de uma ‘vitrine’ que auxilia na divulgação dos serviços, aumentando a cartela de clientes, além de outros benefícios 

Já para quem contrata, facilita a busca por um profissional qualificado, seja em obra, reforma, acabamento, manutenção e outros. A plataforma indica o trabalhador mais próximo e disponibiliza referências de serviços anteriores, evitando frustrações. 

Em Maringá, a plataforma tem cerca de 300 profissionais cadastrados. No Brasil, são mais de dois mil. Mas em breve esses números devem aumentar. No início do ano a startup recebeu aporte de R$ 1 milhão que será destinado à divulgação. A expectativa é que o alcance chegue a mais cidades brasileiras e ao exterior. Inclusive, há negociações com investidores de Portugal. 

“Parece que estou sonhando. Passei o ano passado fazendo ajustes e agora precisávamos de investimento para continuar crescendo. E muito rápido consegui um investidor sem precisar pulverizar a empresa”, comemora o jovem empreendedor. 

Para este ano, ele traça planos ousados: quer elevar a avaliação da marca dos atuais R$ 3 milhões para R$ 30 milhões. “Dá tranquilamente porque sem campanha já chegamos até aqui. O produto é bom e funcional. Creio em um ano de ouro para o aplicativo se mostrar no mercado”. 

Foi nos fundos de casa que Matheus Machado Gonçalves criou a Quem Contrato, startup que conecta empresas e profissionais da construção civil, como engenheiros e pintores; empresa está avaliada em R$ 3 milhões

Desperdício e economia

‘Nós te ajudamos a comprar barato. Você nos ajuda a reduzir desperdícios’. Esta é a mensagem para os usuários que acessam a home da Minus. Idealizado pelos amigos e sócios Giovane Calegari e André Luiz Catuyama Ajita, o site funciona como uma vitrine virtual de ofertas de produtos com prazo de validade próximo. O objetivo é conectar quem precisa vender rápido e quem busca produtos para consumo imediato a preços acessíveis. 

Calegari conviveu de perto com o problema do desperdício quando trabalhava numa rede de supermercados da cidade. “O supermercado até fazia uma seção de descontos com esses produtos, mas tinha dificuldade em controlar os prazos porque não havia um sistema de gestão. O problema do desperdício não acontece só nos mercados. O varejo em geral sofre com isso”, diz o sócio da Minus. 

Para dar fim ao desperdício, Calegari e o sócio decidiram criar uma plataforma de anúncios com produtos próximos ao vencimento. A ideia começou a sair do papel em junho de 2019 e demorou dois meses para ser validada. Para ter certeza que estava no caminho certo, a dupla fez testes gratuitos em supermercados. “Ficou claro que havia demanda para nossa ideia e também para um sistema de controle de estoque com alerta de produtos com risco de vencimento”. 

Os primeiros passos foram dados dentro da Evoa Aceleradora, espaço voltado a alavancar e incentivar startups focadas em inovação. Lá, a dupla contou com mentoria e ajuda para estruturar o protótipo. Calegari avalia a experiência como essencial para acelerar o processo de validação e formatação do negócio, bem como para impulsionar o networking. Foi na Evoa, aliás, que a Minus fechou contrato com o primeiro cliente. 

Desenvolvida apenas com recursos próprios, a plataforma conta atualmente com mil usuários e registra média de mil visitantes únicos por semana. No portfólio de clientes estão três redes de Maringá, Londrina/PR e Guarulhos/SP. 

Calegari, no entanto, lembra que a plataforma é voltada para qualquer setor do varejo. “Até pouco tempo atendíamos um franqueado de O Boticário”, conta, acrescentando que a Minus ajudou a reduzir em 35% o desperdício entre os clientes. 

Por ora, a plataforma apenas conecta empresas e consumidores, uma vez que não realiza as vendas. “Anunciamos os produtos com descontos. Para receber as ofertas basta se cadastrar no site”. Mas em breve a consulta também poderá ser feita pelo aplicativo para smartphones que está em desenvolvimento.

Giovane Calegari e André Luiz Catuyama Ajita criaram a Minus, uma vitrine virtual de produtos com prazo de validade próximo 

Pioneirismo

Os serviços de delivery viram a demanda disparar em meio à pandemia do coronavírus, um cenário muito diferente de 2007 quando o AiQFome chegou ao mercado. À época a internet era discada e convencer os donos de restaurantes a tirar o fio do telefone para colocar no computador era quase impossível. Mas essa resistência não impediu que a ideia nascida durante uma viagem se tornasse realidade. 

“A ideia surgiu em 2001 em uma viagem que Steph, nossa fundadora, fez aos Estados Unidos. Naquela época eram comuns os restaurantes terem sites próprios para fazer os pedidos, mas para cada restaurante era necessário fazer um cadastro, o que dificultava se cada um da família quisesse pedir algo diferente”, explica Tanille Lopes de Melo, operation manager de Integração, Pessoas e Cultura do AiQFome. 

De lá para cá, a ideia amadureceu e, em meio a tropeços, ganhou forma. Em 2007, o domínio           aiqfome.com foi registrado e os restaurantes começaram a ser prospectados. No início, os fundadores Stephanie Luana Gomides Remigio e Igor da Silva Remigio contaram com a ajuda da família para tornar o sonho realidade. Com o passar do tempo, a empresa familiar evoluiu para um modelo de startup seguindo o estilo da dupla.

“Os dois sempre tiveram uma pegada mais ‘xovem e descolada’, sempre gostaram de designer e comunicação atual. Estar no modelo de startup não foi algo planejado. Simplesmente casou com nosso jeito de ser. Antigamente não existia tanto incentivo voltado à tecnologia, por isso, não tivemos a oportunidade de ser mentorado”, comenta Tanille. 

Isso não impediu que o AiQFome fosse longe. Mesmo antes da pandemia, o aplicativo fazia sucesso. Em 2020, a empresa com sede em Maringá registrou aumento no número de inscrições na plataforma: são mais de dois milhões de usuários e 20 mil restaurantes cadastrados. A marca está presente em cerca de 600 cidades do interior do Brasil, já que os focos são municípios menores, e conta com quase 150 colaboradores espalhados pelo país. 

Não à toa a empresa despertou o interesse do Magazine Luiza. Em transação fechada em setembro passado, a startup de delivery de comida foi incorporada à prateleira de serviços do marktplace da varejista - o valor do negócio não foi divulgado. 

O processo de integração, segundo Tanille, ocorre de forma tranquila e natural. “O nosso CEO continua à frente da operação. Internamente sentimos pouca mudança, até porque o Magalu e o        AiQFome têm sinergia na forma de pensar, tanto com os clientes quanto com os colaboradores. Foi um ótimo casamento”. 

A operation manager atribui o sucesso do aplicativo à proximidade com os clientes e à forma de comunicação descontraída. “Ter a sede no interior ajuda a ‘sentir a dor’ do nosso público, já que geralmente quando se fala em delivery, os grandes players focam nas metrópoles”. Ela adianta ainda que o desafio em 2021 é manter o crescimento.

Tanille Lopes de Melo, do AiQFome: criada em 2007, quando a internet era discada, empresa tem 2 milhões de usuários, 20 mil restaurantes cadastrados e foi incorporada ao Magazine Luiza