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“Quando a pandemia chegou, nós, enquanto entidade, conseguimos nos reinventar e manter a qualidade do atendimento. Tem sido desafiador”. A afirmação é da gestora do Encontro Fraterno Lins de Vasconcellos, Ana Carolina Tiene Andrade, e resume o desafio que as entidades sociais de Maringá enfrentam. 

Afinal, junto à pandemia veio a queda das receitas, porque eventos como a Festa das Nações e a Festa da Canção, que representavam parte importante das receitas, deixaram de ser realizados. As entidades também viram as doações de pessoas físicas e jurídicas caírem e os voluntários diminuírem. A equação difícil de ser resolvida tem exigido novas formas de captação de recursos e de atendimento ao público.

Com 20 anos de história, o Lins de Vasconcellos viu aumentar a demanda por atendimento, ofertado para mil crianças e adolescentes, principalmente jovens com 14 anos ou mais que precisam contribuir com a renda da família. Isso porque a entidade auxilia no encaminhamento para o mercado de trabalho por meio do programa Jovem Aprendiz. Outra vertente da atuação consiste em ações de convivência. “São oficinas de formação que acontecem no contraturno escolar, fortalecendo os vínculos e ajudando na preparação para o mercado de trabalho”, explica Ana Carolina.

Ana Carolina Tiene Andrade, do Lins de Vasconcellos: houve redução de 48% nas doações destinadas à entidade que atende mil crianças e adolescentes

Criatividade nas aulas

Lá as atividades passaram a ser online, salvo exceções em que há necessidade de acompanhamento psicossocial. São aulas gravadas e atividades ao vivo, além do envio de material impresso para quem não tem acesso à internet. Ana Carolina conta que a ONG não mede esforços para manter a qualidade do atendimento. “Temos que ser criativos para reter o público. A transição do presencial para o remoto foi desafiadora, especialmente para quem tem acesso à internet pelo celular, mas não conta com velocidade ou pacote de dados para acompanhar as aulas ao vivo com o professor. Então, tivemos que criar uma metodologia flexível e pensar em outras formas de acompanhamento como WhatsApp e drive thru de atividades e entrega de materiais”, completa a gestora. Isso contribuiu para a frequência nas atividades.

A entidade também viu a arrecadação diminuir: antes da pandemia, 60% dos recursos vinham de editais públicos e privados e o restante, de doações da comunidade e campanhas. No entanto, houve redução de 48% nas doações. Ainda que a instituição esteja se recuperando, não alcançou os valores de 2019. Para isso, tem investido em iniciativas como o carnê fraterno. “São contribuições recorrentes em que o doador se compromete com 12 parcelas de qualquer valor a partir de R$ 20. Essa parceria mensal é importante para dar continuidade às ações da entidade”, explica Ana Carolina. Também foi preciso realocar funções no quadro de 30 funcionários.

Novas iniciativas

Sem fins lucrativos e com atendimento voltado a crianças e jovens de baixa renda, o Instituto Isis Bruder também precisou mudar a forma de atuação e de captação de recursos. “É uma instituição que está acostumada a se reinventar, são 52 anos de existência”, define a gestora Luciana Faria.

A entidade oferece serviços de convivência e fortalecimento de vínculos para 150 crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, e encaminhamento para o mercado de trabalho por meio do Jovem Aprendiz, com atendimento de aproximadamente cem adolescentes. 

Como as crianças e jovens não estão indo presencialmente à instituição, tudo é oferecido de forma online pelo canal no YouTube e página do Facebook. As exceções são os casos em que há a necessidade de atendimento presencial com psicólogo ou assistente social. 

Luciana relata que a entidade tem se desdobrado para entender as tecnologias e possibilitar o atendimento online de qualidade. Também há envio de roupas e cestas básicas para as famílias atendidas.

Na outra ponta, o faturamento registrou queda significativa. Antes, 60% dos recursos tinham como origem doações e eventos promocionais, e o restante vinha da igreja mantenedora e da prefeitura. “A Festa das Nações era a nossa maior fonte de renda: arrecadávamos de R$ 30 mil a 50 mil todos os anos”, relata. O Isis Bruder também viu empresas deixarem de contribuir. 

Para reverter a situação, a entidade conta com duas iniciativas: o bazar online e o Isis Burger. O bazar é uma adaptação de um evento presencial, em que por meio de uma página do Instagram são vendidas roupas usadas por valores de R$ 5 a R$ 50. Pautada em moda sustentável, a iniciativa conquistou mais de mil seguidores no perfil @bazarisisbruder

Já o Isis Burger é um drive-thru de hambúrgueres, cuja primeira ação aconteceu em dezembro do ano passado e outras duas estão programadas. Os interessados chegam de carro, fazem o pedido e em menos de dez minutos recebem lanche, batatas fritas e refrigerante, tudo por R$ 25. Foram vendidos mil combos em dois dias.

Mesmo assim a entidade precisou reduzir o quadro de funcionários, que hoje soma 20 profissionais. Se antes o número de voluntários chegava a 300 na Festa das Nações, agora não há nenhum, até porque não tem havido atendimento presencial.

Além disso, a equipe acompanha diariamente as pessoas atendidas por meio de ligações e chamadas de vídeo e está planejando estratégias para atrair doadores. “O instituto é como se fosse um guarda-chuva que acolhe muitas famílias, por isso, vamos nos reinventando para cumprir nosso propósito”, conclui Luciana.


Isis Bruder criou canais online para as atividades destinadas a crianças e adolescentes, bazar eletrônico e drive de hambúrguer; na foto a gestora Luciana Faria

Despesas somam R$ 100 mil

A Rede Feminina de Combate ao Câncer (RFCC) igualmente adotou iniciativas online, depois da queda brusca na arrecadação pelo Nota Paraná e nos valores de doações. “Somente com o Nota Paraná arrecadávamos de R$ 20 mil a 30 mil por mês, mas com a pandemia teve mês que chegou a R$ 1 mil, e hoje não passa de R$ 15 mil”, informa a gestora Janaína Mantovani. Lá as despesas mensais somam R$ 100 mil.

A entidade transformou o maior evento presencial, o bingo CháColate, que reunia até mil pessoas, em online e criou uma página na internet para o recebimento de doações – o endereço é www.rfccmaringa.org.br/doacao. Um grupo de 20 voluntários utiliza as próprias redes sociais para divulgar a entidade e ajuda a captar recursos. É o grupo Núcleo Digital. 

Além disso, a RFCC possui loja de artesanato, que funciona tanto presencialmente quanto de forma online pelo https://www.lojadarede.org.br/. Os produtos são feitos na instituição por funcionários e voluntários do Núcleo de Artesanato. Há ainda um brechó que funciona somente de forma presencial, quando permitido pelos decretos municipais. As vendas são de produtos doados e acontecem na sede da ONG de segunda a sexta-feira, com valores a partir de R$ 1. 

A entidade, formada por 247 voluntários e 24 funcionários, atende pacientes com câncer em situação de vulnerabilidade social em duas categorias: cadastrados e hospedados na Casa de Apoio. 

Os cadastrados somam 290 crianças, adolescentes e adultos residentes em Maringá e Sarandi que recebem apoio enquanto realizam o tratamento da doença. Entre os benefícios estão a oferta de cestas básicas, medicamentos não fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), dieta enteral e fraldas, além de acompanhamento psicológico. Já a Casa de Apoio tem capacidade para 32 pacientes de outras cidades que se deslocam a Maringá para o tratamento do câncer e precisam de hospedagem enquanto fazem sessões de quimioterapia e radioterapia.


Despesas mensais da Rede Feminina somam R$ 100 mil, por isso, a entidade realiza bingo online e criou um site para recebimento de recursos; na foto a gestora Janaína Mantovani

Saudade do contato físico

Não diferente é a situação do Lar Escola da Criança, que atende 400 famílias, por meio de assistência social, capacitações profissionais e técnicas. A presidente Fátima Iwata, conta que as atividades também migraram para o digital. “As profissionais estão dando sequência ao cronograma por meio de vídeos instrutivos e lúdicos. Abrimos canais nas mídias sociais e montamos grupos fechados para as crianças e suas famílias. Também entregamos, mensalmente, kits com as atividades impressas e o material para desenvolvê-las, bem como alimentos e produtos de higiene”, explica.

O Lar Escola da Criança se mantém com doações da prefeitura, projetos mensais, eventos promocionais e doações de empresas e da comunidade. Só as doações representam 40% dos recursos da instituição e mesmo com a pandemia, têm sido constantes. A intenção é que os eventos sejam presenciais até o final do ano. “Se pudermos realizar tudo de forma presencial será ótimo, caso contrário, vamos realizar no sistema drive-thru e no modo virtual”, destaca.

Com a pandemia, o projeto Amigas do Lar foi reformatado. É que mulheres que se reuniam semanalmente para fazer artesanato e organizar o chá mensal agora realizam uma rifa online. Outra forma de captação é por meio da venda de produtos doados pela comunidade, que são divulgados em @bazardolec no Instagram.

Atualmente a entidade conta com 20 funcionários e 150 voluntários, e faz planos de retomar os atendimentos presenciais. “Temos a expectativa de retornarmos de imediato, assim que for liberado pelos órgãos competentes, afinal, estamos todos com saudades do contato físico e, principalmente, do movimento das crianças na instituição”, relata.


Fátima Iwata, do Lar Escola da Criança: “estamos com saudades do contato físico e, principalmente, do movimento das crianças na instituição”