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Negócios que fazem a diferença

Negócios que fazem a diferença

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Não são apenas as garrafas PET, usadas como matéria-prima para as vassouras ecológicas, que ganham ‘novo destino’ na Nova Atitude Ecológica. O negócio comandado por Jacira Reami ultrapassa as paredes da fábrica localizada na avenida das Grevíleas e transforma a vida de dezenas de famílias, além de impactar o meio ambiente.

Foi justamente com esse propósito transformador que Jacira, ao lado do marido, Áureo Antônio dos Santos (in memorian), criou a empresa em 2005. Na época, o casal maringaense tinha acabado de deixar a carreira no serviço público e mudado para Barreiras/BA. Lá, deparou-se com uma realidade diferente da arborizada e limpa Maringá.

Disposta a arregaçar as mangas, Jacira procurou o Sebrae e descobriu o projeto Recicla Barreira, idealizado por uma ONG. Ela abraçou a causa e passou semanas pesquisando iniciativas bem-sucedidas de reciclagem. Entretanto, a proposta de implantar a coleta seletiva na cidade baiana não teve apoio da administração local.

Em vez de engavetar a ideia, Jacira viabilizou o projeto por conta própria. Em visitas a escolas, incentivava as crianças a separar o lixo em casa e falava sobre conscientização ambiental. O trabalho era feito com os alunos com a intenção de alcançar os pais.

Inicialmente, os recicláveis eram adquiridos por ela e revendidos para empresas em grandes centros. O foco mudou depois que o marido descobriu que era possível transformar garrafas PET em vassouras ecológicas e, ao mesmo tempo, livrar o meio ambiente de um material que leva 500 anos para se deteriorar, de acordo com Jacira.

Foi assim que surgiu a Nova Atitude Reciclagem que, após ser transferida para Maringá em 2008, foi rebatizada de Nova Atitude Ecológica. Foi o marido de Jacira quem desenvolveu as máquinas que, inicialmente, foram usadas na produção de corda de varal e depois em vassouras.

Em Maringá, a empresa fez parceria com entidades e passou a garantir renda para famílias de aposentados e baixa renda. “Ensinamos a técnica, fornecemos o maquinário e depois compramos a produção. O resgate ou a aquisição da matéria-prima é de responsabilidade das entidades e a fabricação é feita exclusivamente na nossa fábrica, onde trabalham sete colaboradores”, explica Jacira, que calcula atualmente 40 pessoas envolvidas – antes eram 80.

A empresária diz que precisou ajustar a produção por conta da pandemia, tanto por causa das restrições como pela falta de matéria-prima. “Tivemos dificuldade para encontrar PET. Com muito custo estamos mantendo a produção”.

Segundo a empresária, as vassouras ecológicas são até 30 vezes mais resistentes do que as tradicionais. São cinco modelos, com cabos alongados que tornam a varrição ergonômica. Os produtos são vendidos em Maringá e região, bem como em outros estados. Também são adquiridos por prefeituras por meio de licitações.

“A vassoura carrega uma proposta ecológica importante, pois além de retirar 20 garrafas do meio ambiente, evita o descarte de outras 30 vassouras comuns no lixo. O resultado dessa conta é benéfico também quando avaliamos a economia financeira oferecida ao consumidor: 70% do valor que seria gasto com as várias vassouras tradicionais. Também é preciso lembrar que é um trabalho manual, focado não só na transformação de produtos, mas de vidas”.

Autoestima e independência





Isolene Niedermeyer oferece cursos de costura de lingerie para que mulheres tenham independência financeira; ela também ajuda a comercializar a produção 



Transformar vidas também tem sido a missão de Isolene Niedermeyer, que há mais de 30 anos – inspirada na própria história - criou a Cia Magistral para ajudar no resgate da autoestima e na geração de renda de mulheres, muitas vítimas de violência doméstica. 

Mãe solteira aos 16 anos, Isolene fugiu de casa para não ser obrigada a se casar com a pessoa com quem mantinha um relacionamento abusivo. Sem formação profissional, ela contou com a ajuda de um ‘anjo’ que a acolheu e lhe ensinou a arte da confecção de lingerie, garantindo-lhe o sustento e a manutenção da guarda da filha. 

O negócio começou de maneira tímida e solitária. Isolene comprava os retalhos, costurava as peças e as vendia. Ao descobrir o potencial do mercado, percebeu que poderia crescer e ajudar mulheres com histórias semelhantes à sua. 

Em 1990 nasceu a Cia Magistral, que ensina técnicas de costura e tem por missão ajudar mulheres a ter uma profissão e conquistar a independência financeira. “Não poderia ser uma empresa comum, precisava fazer a diferença, contar histórias e transformar vidas”, comenta. 

Desde a inauguração, já passaram pela escola mais de 320 mil alunas do Brasil e até do exterior. Nas aulas presenciais ou online, elas aprendem o passo a passo da confecção de lingerie, desde o corte, montagem à colocação de elástico. Com várias opções, os cursos contemplam tanto costureiras experientes como iniciantes.

Mas a ajuda não se limita a ensinar a técnica de costura. Para facilitar a aquisição de matéria-prima, as alunas podem adquirir kits de tecidos. E para aquelas com dificuldade de comercializar a produção, a Cia Magistral adquire as peças garantindo 40% de lucro. 

“Muitas mulheres têm medo de não conseguir vender, por isso compramos a produção e revendemos em lojas físicas de parceiros. Por outro lado, muitas descobriram que poderiam faturar mais e lançaram marca própria, abriram micro e pequenas empresas e estão fazendo sucesso”.

Outra contribuição é o desenvolvimento de lojas online, de maneira gratuita. Assim, cada aluna pode comercializar suas peças na internet. Antes, elas também podem aprender sobre gestão de negócios, finanças e marketing digital.

No canal que mantém no YouTube, além de aulas gratuitas sobre costura, Isolene dá uma importante contribuição social ao compartilhar conteúdos de autoestima e de combate à violência doméstica. A empresa recentemente aderiu ao Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e atingiu a pontuação para receber o selo de negócio sustentável. 

Isolene destaca que, focar o empreendedorismo em iniciativas para transformar vidas, não significa ausência de lucratividade. “Qualquer negócio é financeiramente viável, desde que seja planejado. O lucro é fundamental para inovar e driblar os desafios. Fazer a diferença e entregar mais que apenas um curso me diferencia das outras empresas de cursos e me realiza como empreendedora”, comenta. 

Além da venda de cursos, o Grupo Cia Magistral conta com marca própria de lingerie, criada pela estilista da empresa. Parte das peças é produzida na fábrica em Maringá, e o restante por facções e costureiras terceirizadas. 


Lucrar e fazer a diferença

Negócios de impacto, como os de Jacira e Isolene, estão conquistando espaço no mercado global. Ora a iniciativa vem do perfil transformador do empreendedor, ora de critérios exigidos por programas de acesso a crédito e oportunidades às empresas economicamente viáveis, ambientalmente corretas e socialmente responsáveis.

Em meados dos anos 2000, a ONU lançou oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que em 2015 foram substituídos pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). São 17 metas globais para acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar a paz e a prosperidade de todos. 

“É uma necessidade emergencial para a manutenção da vida no futuro e é importante que mais pessoas percebam isso, e assumam sua parte no processo”, ressalta a consultora do Sebrae Silviane Del Conte Curi, que é especialista em modelagem e estratégias de negócios. 


Silviane Del Conte Curi, consultora do Sebrae: há negócios que nascem para resolver um problema socioambiental e organizações que assumem o compromisso com os princípios de ESG 


Há negócios que nascem a partir do propósito de melhorar uma questão social e/ou ambiental e aqueles que surgem de uma demanda. “No primeiro caso, nos referimos aos negócios de impacto, criados para resolver um problema socioambiental e ter lucratividade. Eles mensuram os impactos e acompanham a performance periodicamente, geram receitas a partir da comercialização de produtos e serviços, e possuem governança. O segundo exemplo diz respeito às organizações que assumem o compromisso com os princípios de ESG [sigla em inglês para Environmental, Social and Governance] e o papel socioambiental na sociedade”, explica a consultora. 

Ela cita ainda casos de empresas, organizações, empreendedores e startups com propósito apenas de mercado, mas que com consciência de seu papel na sociedade e no meio podem adotar processos internos para se adequar aos princípios de ESG. Existem também aqueles que estruturam negócios a partir de uma demanda socioambiental, enquadrando-se como negócio de impacto sem ter consciência disso. 


Tripé

Mas, afinal, o que significa a sigla ESG? Ela apareceu pela primeira vez em 2005 no relatório “Who Cares Wins” (ganha quem se importa), do Banco Mundial em parceria com o Pacto Global da ONU. Tendo como base a responsabilidade social, em português a sigla significa ambiental, social e governança. 

“Para as empresas e corporações os princípios de ESG são a assunção de seu papel na sociedade, seja por meio da gestão otimizada dos recursos, seja pela responsabilidade sobre a produção e uso de matéria-prima ou recursos hídricos e naturais, compensação de CO2, mitigação dos impactos das suas ações e das mazelas sociais no seu entorno e na vida de seus colaboradores”, explica Silviane. 

Os ESG, ainda segundo a consultora, são os ativos intangíveis e representam uma possibilidade de agregar valor à marca, produtos e serviços. “São princípios que asseguram gestão sustentável para o meio ambiente, melhoria da sociedade e a própria saúde financeira da empresa”. 

De acordo com dados da empresa de consultoria PwC, em 2020 os fundos ESG cresceram quase o dobro do restante do mercado em todo o mundo. A mesma pesquisa sugere que, até 2022, 77% dos investidores abandonarão produtos e empresas não contemplados pela sigla.

“Investidores e fundos de investimentos se pautam nesses três critérios para aplicar seus recursos. Os fundos com tais premissas atingiram a marca de US$ 1 trilhão em 2020 no mundo, e US$ 1 bilhão no Brasil”. 

Essa preferência se estende aos consumidores. Mais exigentes, eles optam por marcas, produtos e serviços engajados com questões sociais e ambientais. Prova disso são os boicotes às marcas que vão na contramão do Pacto Global. 


Rentabilidade

E se há dúvida sobre o retorno financeiro dos negócios de impacto, a consultora assegura não só a rentabilidade como maior competitividade às empresas, em alguns casos até superiores as empresas tradicionais do mesmo setor. “A lucratividade e o retorno financeiro estão mais atrelados à capacidade de gestão, construção de estratégias e percepção de oportunidades em cenários econômicos mutantes. Assumir e praticar os princípios de ESG podem reduzir consideravelmente os custos operacionais, principalmente nas indústrias”. 

Silviane destaca ainda que a sustentabilidade está acessível e deve ser incorporada independente do porte do empreendimento. “Este é o futuro do mercado. Ou não teremos futuro”. 


“Muitas empresas queriam se tornar sustentáveis, mas não sabiam por onde começar. Outras tinham práticas informais e sem trazer reconhecimento”, comenta Nádia Felippe sobre a criação do Selo ODS




Boas práticas certificadas

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) trazem à tona temas importantes como equidade, responsabilidade social, consciência ambiental, acesso à educação e promoção da saúde. Desde 2019 o Instituto ACIM trabalha para divulgar esses objetivos e incentivar o engajamento em prol do desenvolvimento sustentável. Para isso, criou o Selo ODS, que reconhece o comprometimento de empresas com a construção de uma sociedade ambientalmente sustentável e socialmente equilibrada.

“Muitas empresas queriam se tornar sustentáveis, mas não sabiam por onde começar. Outras tinham práticas realizadas de maneira informal e sem trazer reconhecimento. A certificação dos ODS foi elaborada para criar multiplicadores sobre a temática, auxiliar as organizações de qualquer porte a gerar impacto de valor na sociedade e serem reconhecidas por isso”, explica a presidente do Instituto ACIM, Nádia Felippe.

Para a obtenção do selo é preciso passar por treinamento, além de assessoria e auditoria de certificação. Ao longo dessas etapas são abordados temas como a construção de uma estratégia de sustentabilidade; imersão nos ODS; cases de projetos; workshop para construção de projetos e indicadores; mapeamento de práticas e treinamento para certificação.

Dependendo do desempenho, há três tipos de selo, que poderão ser usados nos materiais de divulgação e mídias sociais pelo prazo de 12 meses. Empresas comprometidas com os 17 ODS recebem o selo ouro, de 8 a 16 objetivos levam selo prata, e as que atenderem entre 2 e 7 ODS recebem selo bronze. 

“Especialistas afirmam que as empresas propícias para investimentos e que terão melhor desempenho no longo prazo são aquelas que se preocupam em adequar suas decisões e operações aos critérios de sustentabilidade. O mercado consumidor e de trabalho também exige uma atuação social e ambientalmente responsáveis. Empresas com o selo saem na frente”, ressalta Nádia. 

Este ano, 23 empresas estão em busca do selo. Nos dois últimos anos, 11 foram certificadas. O treinamento é realizado em parceria e subsidiado pelo Sebrae duas vezes por ano, porém, há a modalidade in company, que leva o curso para dentro da empresa. 

Além de contribuir para a criação de novas práticas, a certificação ajuda a melhorar as existentes, capacitando para a transformação de ações em projetos, trabalhando com indicadores e atrelando-as à estratégia empresarial, contribuindo inclusive para a competitividade. No caso de micro e pequenos negócios é possível mudar a cultura da sociedade”, finaliza Nádia.


Testando e idealizando ideias

Para ter sucesso nos negócios, um lampejo criativo não é suficiente. Além de uma boa ideia, quem pretende levar adiante um projeto e, de alguma forma, transformar a realidade ao seu redor, precisa seguir alguns passos. Auxiliar os empreendedores a trilhar esse caminho é justamente o propósito do programa Inovus Teste sua Ideia.
“Por meio do programa o empreendedor consegue validar a ideia antes de dispor de tempo e recurso sem saber se há mercado. Além disso, a ideia que antes estava apenas no papel, com o MVP (Produto Mínimo Viável) consegue participar de programas de acelerações, rodadas de investidores anjos, entre outros”, diz a gerente operacional da ACIM, Jaqueline Fenilli, que é responsável pelo Inovus.
Em sua segunda edição, Inovus Teste sua Ideia - Edição Impacta teve 40 inscritos, seis a mais do que em 2020. Nos dois anos, 13 inscritos passaram para a fase de pitch (apresentação do projeto) e oito foram aprovados.
Os critérios de seleção foram: capacidade técnica e gerencial; clareza; se a ideia reflete o entendimento dos potenciais clientes e suas necessidades; e se atende a pelo menos um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
“O objetivo é disseminar a ideia de que é possível gerar lucro e impactar positivamente a sociedade”, explica Jaqueline. Negócios de impacto, segundo ela, são aqueles com a missão de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que geram resultado financeiro positivo e de forma sustentável.
Para chegar lá, os selecionados do Inovus Teste sua Ideia - Edição Impacta percorreram uma jornada que os conduz à autoavaliação das ideias, validação da proposta de valor e, por fim, à construção do produto/serviço.
Essa jornada consiste num conjunto de quatro bootcamps (treinamentos intensivos) e mentorias semanais – tudo de forma online. O final foi a apresentação no Impacta Maringá, projeto social do Copejem para gerar conhecimento para a sociedade por meio da inspiração em cases. Realizado no final de julho, o evento contou com a participação de empresários reconhecidos nacional e internacionalmente.


Inovus Teste sua Ideia – Edição Impacta recebeu 40 inscrições de projetos que atendem a no mínimo um ODS: oportunidade de validar a ideia e ter acesso a mentorias