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Os compradores querem propósito

Os compradores querem propósito

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“Meu trabalho não é só decorar, mas tornar os ambientes acolhedores”. É com este pensamento que a empresária Maria Fernanda Mazzer sai de casa todos os dias para atender no Novo Bazar. Com o propósito de ‘ajudar as pessoas na busca pelo bem-estar’, a loja nasceu em 2014 no e-commerce e ganhou endereço físico em 2017, optando por um estilo de venda focado e menos agressivo. 

Maria Fernanda agrega consumo consciente e sustentável para levar bem-estar à casa dos clientes, considerando seu ideal pessoal e a preocupação com o futuro do planeta. De acordo com ela, a pretensão é contribuir para a mudança de hábitos do cliente e, consequentemente, ajudar a transformar o mundo. 

“Temos certeza que a sofisticação está na simplicidade. Por isso temos uma proposta de trabalho humanizada e incentivamos o consumo consciente, agregando aos ambientes itens que as pessoas possuem e que evocam memórias”, diz a empresária. 

No Novo Bazar, os produtos estão alinhados ao propósito, que inspira e orienta as práticas da empresa. Além dos itens de decoração, a loja trabalha com produtos livres de pólvora na composição, velas aromáticas sem parafina e busca fornecedores que trabalham de modo sustentável. O reaproveitamento de plásticos e o uso de embalagens recicláveis também são parte dos hábitos. 

Maria Fernanda diz que as estratégias de venda são menos agressivas na comparação com outras empresas, já que ela e os demais colaboradores defendem o reaproveitamento e hábitos de vida simples. Por conta disso, leva mais tempo para fidelizar a clientela. “Se o público é conquistado de acordo com o propósito da empresa, aí o teremos para sempre”, analisa a empresária. 
Para ela, é gratificante fazer negócios e transformar hábitos. “Quando falam de nós, quando recebemos um cliente indicado por outro, quando dizem que procuraram a loja porque buscam mudar de hábitos e consumir de forma consciente… este retorno é gratificante”, comenta.

O consumo consciente e sustentável está presente no Novo Bazar, de Maria Fernanda Mazzer, por meio dos produtos, atendimento e até na divulgação ‘menos agressiva’ da empresa


Por que e o quê?

No início do ano, a IBM (International Business Machines Corporation) divulgou pesquisa sobre tendências de consumo que mostrou que o propósito da marca supera fatores como custo e conveniência. Desenvolvido em parceria com a National Retail Federation (NRF), o estudo entrevistou aproximadamente 20 mil consumidores de todos os grupos demográficos e de idades, em 28 países, incluindo o Brasil.

Conforme a pesquisa, os consumidores estão deixando de comprar marcas das quais eram clientes e preferindo as mais transparentes, sustentáveis e alinhadas aos seus valores pessoais. O estudo previu consumidores pagando, neste ano, em média 35% a mais por produtos sustentáveis e de procedência transparente. Além disso, 57% se mostraram dispostos a mudar hábitos para ajudar a reduzir o impacto ambiental negativo.

O estudo indica que ter um propósito faz diferença no mercado e que uma empresa, na hora de definir o seu, pode considerar entre outros fatores as tendências de consumo. Nesse universo, propósito é aquilo que dá motivos para a tomada de decisões e execução de tarefas, é um compromisso de todos que fazem parte da organização. Assim, é preciso responder questões como: o que a marca se propõe a ser na vida dos consumidores e por quê, além de como pretende impactar o mundo.

O propósito inspira todas as ações, a missão é uma descrição do negócio, a visão traça objetivos futuros, os valores ditam as regras e a cultura da empresa estabelece os fatores que conduzem as atividades. Assim, colocar em uma frase o propósito, que deve abrigar tudo isso, é um trabalho que exige mapeamento profundo da empresa, de seus líderes e colaboradores. 

Para o designer thinker Renan Ferreira Venancio, existe o risco da definição do propósito não passar de uma frase bonita, caso ela não represente os pilares da cultura empresarial. “A marca é a soma de todas as experiências que uma organização coloca no mundo. O propósito diz qual direção leva a essa experiência”, explica Venancio.


Como definir?

Como forma de descobrir e definir o propósito, o especialista indica workshops de design thinking, abordagem que permite uma imersão em emoções, ambições, planos, ideais, empreendedorismo e outros aspectos da empresa. “Tem a análise mercadológica do nascimento, dos concorrentes, dos públicos, o que é mais complexo se a empresa já existir. O que ela tem internamente? Por que comprar dessa empresa se outras oferecem os mesmos produtos? Qual a ambição? O que pode gerar transformação? Esta transformação é ligada ao propósito”, provoca.

A frase pode incluir ou não o que de fato se vende, a exemplo do propósito da multinacional RedBull que é ‘Revitalizar corpo e mente’. E o seu melhor uso não é na comunicação, mas na estruturação cultural para guiar ações, humanizadas, especialmente com relação aos funcionários, que devem reconhecer a ideia como público interno e por estarem na linha de frente. 

“Quando seu cliente, sem saber da frase, fala algo parecido, diz que sua empresa provoca sensações que se aproximam do que foi definido, aí é possível ter ciência de que está dando certo. Se foi preciso apresentar ou explicar ao cliente, o propósito não está sendo integrado adequadamente à cultura”, explica Renan.

O especialista ressalta que, no mundo digital e em função da pandemia, não existem grandes ou pequenos negócios, mas os que se posicionam bem ou mal. “O propósito é fundamental nesse posicionamento. É preciso criar uma experiência que se alinhe a isso, ter um plano de ação com execução contínua em curto e médio prazo. Com isso, o lucro vem como resultado da diferenciação.”

Renan Ferreira Venancio, designer thinker: “a marca é a soma de todas as experiências que uma organização coloca no mundo. O propósito diz qual direção leva a essa experiência”


Sob a ética cristã

O projeto ‘Homens com propósitos’, que nasceu em Maringá inspirado em modelos norte-americanos, é baseado em três pilares: vida familiar, vida financeira e vida espiritual. Os membros do grupo, que é aberto, realizam encontros para refletir sobre a vida, buscando construir uma identidade sob a ética cristã. “Um caráter transformado, vida transformada, negócios transformados”, diz José Carlos Lopes, que faz parte do projeto. 

Para Lopes, os propósitos pessoais dos líderes são refletidos no ambiente empresarial e, por isso, ele sugere aos empreendedores questionarem a utilidade da empresa. Para além de vender produtos e prestar serviços, de desenvolver o comércio e de sustentar a família, ele acredita que é preciso pensar sobre como contribuir para o desenvolvimento pessoal, dos colaboradores e da comunidade. “Não podemos mais imaginar uma empresa que vise somente o lucro sem a preocupação em servir. Servir aos outros e também a Deus”, frisa. 

Lopes foi empresário no ramo de implementos rodoviários por 50 anos em Maringá e hoje se dedica ao projeto, além de prestar consultoria e assessoria em negócios imobiliários. Sua estratégia para a realização é aprender sempre. “Existem erros e acertos. Quanto mais cedo entendermos o propósito de Deus para nossa vida em todas as áreas, melhor seremos como pessoas, empresários. Busco orientação e sabedoria meditando na palavra de Deus, me cercando de pessoas de fé e que buscam o mesmo propósito. Perdendo às vezes, para ganhar sempre”, relata. 

Aos empresários e futuros empreendedores ele deixa o conselho: “seja íntegro, persistente, honesto, trabalhe sempre com a verdade, humildade e tenha caráter irrepreensível. Abra espaço em sua agenda para ouvir as pessoas e valorizá-las.”

José Carlos Lopes, do grupo Homens com propósitos: “não podemos mais imaginar uma empresa que vise somente o lucro sem a preocupação em servir”