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Produções maringaenses  nas telinhas e nas telonas

Produções maringaenses nas telinhas e nas telonas

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“Hoje tudo que produzimos é para o streaming”, conta o diretor Eliton Oliveira; ele deverá lançar um longa orçado em quase R$ 5 milhões

O surgimento do streaming, plataforma de transmissão de dados que possibilita o acesso a filmes, músicas e outras formas de conteúdo, causou profundas transformações no mercado audiovisual. E para as produtoras, esse foi o ‘pulo do gato’.

“Hoje tudo que produzimos é para o streaming. Nem pensamos em salas de cinema porque é inviável colocar um filme de baixo orçamento em salas dos principais centros do Brasil. Para que isso fosse possível, o investimento em marketing teria que ser maior que o orçamento do próprio filme. E colocar uma obra nas plataformas de aluguel de filmes ou de assinatura mensal está muito mais acessível”, conta o diretor da Script Doctor Productions, Eliton Oliveira.

A empresa surgiu em Maringá há três anos a partir da antiga produtora de Oliveira, a Gato na Árvore Filmes, domiciliada em São Paulo, mas que atuava no mercado maringaense. Com 25 anos de experiência, Oliveira chega agora a um de seus maiores desafios, que é transformar o documentário ‘23.11.1967 - Documentos do Caso Clodimar Pedrosa Lô’, que produziu e dirigiu em 2010, em uma superprodução orçada em quase R$ 5 milhões. 

A narrativa, que conta a história de um menino morto pela polícia suspeito de furtar o dinheiro do cliente de um hotel em Maringá, será um dos maiores projetos realizados na cidade. A previsão de lançamento do longa é para 2027.

A Script Doctor produz longas-metragens de ficção e documentários, mas a ideia é investir também na produção de minisséries e espetáculos teatrais. Para isso, a empresa pretende ampliar a captação de recursos. Os mecanismos de arrecadação mais utilizados são a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual. Ambas possibilitam que os patrocinadores abatam do Imposto de Renda os valores e revertam esse investimento em visibilidade para as marcas. Outro parceiro importante é o Instituto Cultural Ingá (ICI), agência local de fomento e incentivo à cultura.

A produção de um longa-metragem, segundo o diretor, dura entre três e oito meses e pode envolver até 30 pessoas. Entre eles, técnicos, atores, designers, compositores, músicos e artistas das mais variadas áreas. Indiretamente, uma produção também gera renda para hotéis, restaurantes, companhias aéreas, entre outros negócios. 

A maior produção já realizada pela Script Doctor foi o longa ‘O Armário Mágico’, um filme que se passa no final da Segunda Guerra Mundial, filmado quase que totalmente em estúdio e cujo enredo fala de intolerância. A obra foi rodada em Maringá e custou R$ 300 mil, valor recebido do Prêmio Aniceto Matti, edital municipal lançado em 2019. 

O projeto tem potencial de produção internacional: a previsão é que o filme chegue às plataformas de streaming até a metade do ano. Isso vai possibilitar que uma produção feita na cidade seja vista em mais de 90 países. 

“Acredito que o filme vai abrir portas para outras produções locais ganharem o mundo. Dentro de alguns anos vai ser comum encontrar uma equipe de filmagem rodando uma cena na cidade ou mais um filme produzido em Maringá nas principais plataformas de streaming. É um trabalho duro e muitas vezes exaustivo, mas podemos transformar a cidade em um polo de produção”, diz Oliveira.

“O ano da virada”


Felipe Cosmos de Oliveira, da Cosmos Filmes: “para 2023 temos seis projetos de documentários. Nunca tivemos tantos projetos em um ano”

Foi o espírito empreendedor de Felipe Cosmos de Oliveira que o levou para o mundo do audiovisual. Em 2016, ele deixou de ser funcionário de uma produtora para investir no próprio negócio, a Cosmos Filmes, que oferece produções culturais e soluções em vídeo, como treinamentos online, comerciais para TV, vídeos institucionais e produção para redes sociais, entre outros processos que uma empresa precise para comunicar produto ou serviço. 

“Pesquisas recentes afirmam que nos últimos dois anos o consumo de mídia audiovisual tem crescido mais de 160%. A maioria das pessoas prefere assistir ou ter contato com uma notícia por meio de vídeo do que por texto ou imagem estática. Essa mídia é a mais utilizada e a que mais cresce. Então, é fundamental uma empresa ou um projeto ter um conteúdo audiovisual para divulgar”, diz Felipe.

Já no mercado cultural, a Cosmos atua na produção de filmes e documentários de curta, média e longa-metragem. A empresa teve vários projetos contemplados no Prêmio Aniceto Matti, como o curta ‘O dia que eu esqueci de você’, que teve roteiro e direção do historiador Miguel Fernando. 

Depois de um período de ostracismo, quando a pandemia fechou cinemas e teatros e os investimentos em produções audiovisuais foram reduzidos drasticamente, Oliveira acredita na recuperação e crescimento do setor: “Para 2023 temos seis projetos de documentários. É o ano de virada da produtora. Nunca tivemos tantos projetos em um ano. Por conta do crescimento do consumo do audiovisual pelas empresas, para comunicação tanto interna quanto externa, nossa expectativa com o mercado publicitário empresarial é alta. Também pretendemos ampliar os negócios”.

Entre os maiores trabalhos realizados pela empresa no segmento comercial está uma série de vídeos de animação 2D, contratado por uma startup de São Paulo que estava angariando clientes fora do país. Os materiais, então, foram rodados em línguas portuguesa, inglesa e espanhola, e distribuídos por todo o continente americano. 

No mercado cultural, uma das maiores produções da empresa é o documentário histórico ‘Scherer: do nazismo à terra vermelha’, que teve filmagens em Maringá, São Paulo e cidades da Europa, como Estrasburgo, Londres e Munique. O filme fala sobre a vida do alemão Emil Scherer, primeiro padre de Maringá, e tem estreia marcada para 3 de maio, no Cineflix do Maringá Park.


Crescimento em Maringá


“Há apoio de empresas ao audiovisual local, inclusive se valendo dele como ferramenta publicitária”, diz o produtor e diretor Ribamar Nascimento

Maringá vive um de seus melhores momentos na produção audiovisual. A cidade conta com diversos grupos que produzem não só localmente, mas em todo estado. Contudo, segundo o produtor e diretor cinematográfico Ribamar Nascimento, falta investimento para que as empresas locais alcancem projeção nacional. “Os investimentos ainda são pequenos se considerada a quantidade de produções em potencial. Porém, há apoio de empresas ao audiovisual local, inclusive se valendo dele como ferramenta publicitária”.

Nascimento começou a atuar no mercado há dez anos, produzindo vídeos e materiais publicitários para empresas de São Paulo. Ele ganhou experiência, tornando-se conselheiro de cultura para o setor audiovisual, além de presidir a Procinema, associação criada em Maringá que ajudou a promover a integração de players do mercado audiovisual. 

Ainda de acordo com ele, as parcerias são fundamentais para as empresas que buscam se consolidar. Exemplo disso foi a produção do longa-metragem ‘A Cápsula’, realizada em coprodução com a Kinopus Audiovisual e Cosmos Filmes. O filme, que cria um mundo pós-apocalíptico onde dois irmãos encontram uma cápsula do tempo, conta com a participação do Luiz Carlos Persy, famoso pelas dublagens de personagens como Gandalf, da trilogia ‘O Hobbit’, além de atores e profissionais locais. “O longa já tem pré-licença com a TV Cultura, de São Paulo, e será a primeira veiculação de um trabalho meu e dos coprodutores em rede nacional aberta”, conta. 

Outra produção importante realizada por Nascimento foi o curta-metragem ‘Ressurgido’, que traz a história de um cyborg que procura os responsáveis pelo vazamento de uma tecnologia militar. Com potencial para se tornar uma série de TV, o curta produzido em Maringá contou com as participações de Daniel Simitan, vencedor de melhor trilha no Festival de Gramado, Hélio Ribeiro, dublador nacionalmente conhecido, e Sérgio Menezes, ator global. 

O diretor tem projetos de filmes inscritos em editais estaduais, além de produções publicitárias em andamento. Sobre rodar as produções em Maringá, Nascimento diz que tem vivido experiências que demonstram o potencial do cinema local. Entretanto, segundo ele, ainda é preciso trabalhar na formação e capacitação de profissionais. Além disso, é preciso conscientização da sociedade em relação à importância das produções cinematográficas para o desenvolvimento da cidade.


Incentivo à cultura


Victor Simião, secretário de Cultura: projetos municipais de incentivo à cultura distribuem R$ 3 milhões por ano

Com orçamento recorde de R$ 6,17 bi para a cultura nacional em 2023, os projetos ligados ao audiovisual podem ter relevante incremento financeiro. Para se ter uma ideia do aumento dos investimentos públicos na cultura, em 2022 o orçamento do governo federal foi de R$ 1,68 bi, de acordo com o Portal da Transparência, da Controladoria Geral da União. 

Como parte dos repasses é destinada a estados e municípios, mais dinheiro deve entrar para o financiamento de produções locais. De acordo com o secretário Municipal de Cultura de Maringá, Victor Simião, o município tem projetos próprios de investimento no setor cultural. 

Em se tratando de audiovisual, os investimentos são por meio de fomento direto, com recursos disponibilizados pelo Prêmio Aniceto Matti e por meio indireto, através de eventos culturais como o Festival Afro, a Semana Hip Hop e a Festa Literária Internacional. No total, os projetos municipais distribuem R$ 3 milhões por ano. Destes, cerca de R$ 300 mil são destinados à produção audiovisual. 

De acordo com o secretário, podem participar dos programas artistas de forma geral, contanto que sigam os critérios estabelecidos nos editais. Os parâmetros para concorrer são originalidade, justificativa do investimento e argumento. No caso do Prêmio Aniceto Matti, os projetos são avaliados por uma banca independente. 

O município acompanha a mobilização pela criação de um polo cinematográfico e assinou um registro formal de apoio. Para Simião, os impactos da economia criativa trazem benefícios: “uma produção contrata atores, produtores e aluga cenários. Se há atores de fora, eles ocupam hotéis, vão a restaurantes e bares e isso vai mobilizar receitas para os cofres do município. As receitas serão revertidas em novos investimentos”.

Simião vê Maringá como um espaço viável para o trabalho audiovisual, porque conta com bons roteiristas, atores e atrizes. “Também tem havido intercâmbio significativo entre o pessoal das Artes Cênicas e do audiovisual. No fim das contas, todo mundo sai ganhando”, diz o secretário.