Artigos

Com o fim da tempestade empresários planejam bonança

Com o fim da tempestade empresários planejam bonança

60
visualizações

Quando o empresário Roberto Izaguirre II, junto com a família e sócios, selou oficialmente a parceria com a Lez a Lez, em meados de 2020, os shoppings de Maringá estavam com o funcionamento reduzido e contabilizavam quedas nas vendas devido às medidas restritivas de combate à covid-19. Além de antecipar o fechamento para as 20 horas, os decretos municipais proibiam a abertura aos finais de semana, dias de mais movimento nas lojas. 

O cenário momentaneamente adverso não intimidou Izaguirre, que deu vazão ao espírito empreendedor do grupo e entrou para o time de franqueados da marca catarinense por meio da sociedade entre a esposa, Luciana Graziela de Francesco, e a amiga Francine Barbará de Lima. 

“Nosso namoro com a marca vinha de 2019. Estávamos conversando com a franquia e traçando o plano de negócio quando a pandemia começou. Naquele momento surgiu uma dúvida, mas entendemos que a turbulência seria por um período curto e que a oportunidade era interessante”, conta.

Somou-se à visão empreendedora a oportuna vacância de um espaço estratégico no Maringá Park, shopping em que ele detém outras operações e presta consultoria em lojas. A direção do shopping, aliás, teve papel importante para a concretização da parceria com a Lez a Lez. “Foi um negócio a três mãos”, diz o empresário, ao comentar o apoio que recebeu nas negociações com a franquia.

O espaço passou por ampla reforma, que durou seis meses, até a inauguração, em 21 de dezembro de 2020. No mesmo dia, lamentavelmente, Izaguirre perdeu o pai, vítima da covid-19. “Meu pai era um cara para frente. Ele nos serve de inspiração ao empreendedorismo e certamente continuaria apoiando neste caminho”.

Hoje, ao ver a movimentação de consumidores pelos corredores do shopping e diante das vendas da loja nos primeiros meses de operação, Izaguirre está convencido de que fez a escolha certa, e espera ter o mesmo sucesso com o Café Cultura, empreendimento que pretende inaugurar em novembro, no Maringá Park.

Também ‘importado’ de Santa Catarina, o Café Cultura é uma franquia de café e bistrô. “O cardápio é variado, com opções para todas as refeições ao longo do dia e drinks”, adianta o empresário, que acumula experiências no setor gastronômico como franqueador e consultor.

Atualmente em reforma, o ambiente de 110 metros quadrados está sendo projetado para oferecer uma experiência única, e este é o caminho para os negócios físicos fazerem frente às facilidades do online, em especial neste momento em que os consumidores estão ávidos a sair de casa após longo período de isolamento social. “Aos poucos a vida vai voltando ao normal”. Inicialmente a loja vai gerar seis empregos diretos e a expectativa é que o retorno do investimento aconteça em três anos.


Novo conceito 

Experiência de consumo. Esta também é a aposta da Varejocar. A empresa acaba de inaugurar loja na movimentada avenida Colombo, depois de dez anos em outro local. O endereço, aliás, era cobiçado há anos pela direção da empresa, atenta à proposta do poder público – ainda no papel - de transformar a via em um Boulevard de ‘alto padrão’.  

O prédio com três pisos, erguido sob medida, não passa despercebido aos olhos de quem trafega pela via. São 3,6 mil metros quadrados que abrigam uma espécie de ‘shopping’ com mais de 17 mil itens de vários setores, como brinquedos, papelaria, itens de camping, PET, bicicletas, patinetes, cutelaria e uma linha de moda e acessórios, além de opções para sistema de som automotivo. 

Recém-inaugurada, Varejocar é fruto do planejamento de quatro anos; loja deve registrar fluxo seis vezes maior que antigo endereço e quase quadruplicou equipe, conta Suelen Servilheri 


A área de autocenter tem capacidade para até 12 automóveis e mão de obra especializada, formada por 20 colaboradores. Lá é possível fazer alinhamento, balanceamento, revisão, troca de pneus, instalação de acessórios, entre outros. Enquanto os serviços de autopeças são realizados, o cliente pode aguardar no lounge ou no café, usar a brinquedoteca com os filhos, experimentar o simulador de corrida ou relaxar na poltrona de massagem. 

O prédio dispõe ainda de espaços para eventos ligados ao automobilismo, como clube do carro antigo, e coworking. Há área exclusiva para personalização de camisetas, canecas e outros itens, impressora 3D e estacionamento coberto. “Nossa intenção foi reinventar o negócio a partir do desejo e das demandas dos clientes. Buscamos referências até de fora do país para chegar ao conceito atual, com estrutura moderna e mix variado de produtos e serviços”, destaca a encarregada comercial da empresa, Suelen Servilheri. 

Foram quatro anos de planejamento e estudo de mercado e dois anos de obra. E nem mesma a pandemia alterou os planos. O projeto foi desenvolvido por um escritório de arquitetura especializado em retail (varejo) e conta com sistema fotovoltaico e reaproveitamento de água da chuva. Seguindo a linha de sustentabilidade, há estação para carregar carro elétrico.

Embora a ideia seja levar o cliente à loja, a Varejocar não esqueceu de quem quer comodidade: é possível agendar a manutenção do automóvel e o serviço de leva e traz pelo aplicativo. A aprovação do orçamento também pode ser online. O aplicativo permite acompanhar em tempo real a execução do serviço, por meio de câmeras. 

No embalo da mudança física, o e-commerce passou por upgrade. “Tínhamos planos de reativar o site e com a pandemia o projeto foi acelerado para a empresa ser referência no quesito experiência de compra também no virtual”, diz Suelen, acrescentando que os clientes podem retirar as compras em lockers (armários digitais). 

Apostando na retomada da economia, Suelen calcula um fluxo seis vezes maior de clientes e diz que o alvo é o público feminino. “Fizemos um modelo de loja pensado para as mulheres e para família. Pode demorar um pouco, mas a pandemia vai passar e as pessoas vão querer experiências de compra como as ofertadas na Varejocar”. As mulheres também são maioria no quadro de colaboradores, que saltou de 15 para 55. 


Confiança na marca

O otimismo com a vacinação e a retomada da economia chegou a setores mais castigados pela pandemia, como as academias. O fluxo de alunos na Bluefit em Maringá ainda é menor que o registrado no início de 2020. Isso, no entanto, não impediu Emerson Batistella de levar a franquia para Londrina. 


O fluxo da Bluefit em Maringá não retornou ao patamar pré-pandemia, mas, mesmo assim, Emerson Batistella abriu uma unidade em Londrina e está negociando a segunda academia na cidade vizinha

“Sempre quis entrar no mercado de Londrina porque a cidade é maior e tem menos academias do que em Maringá. O que foi decisivo é que a franqueadora também desejava entrar em Londrina e nos ajudou nas negociações e escolha de ponto”, revela o empresário. 

A nova unidade foi inaugurada em agosto e está instalada em uma área de mais de mil metros no Londrina Norte Shopping. A estrutura conta com salas de musculação, bcross, ginásticas e lutas. Segundo Batistella, havia expectativa forte pela chegada da marca, o que eleva a confiança dele na captação de alunos a ponto de já estar em negociação para a abertura de uma segunda unidade na cidade. 

A euforia pode até parecer desmedida, mas não para quem conhece o potencial da marca. O risco de agora nem sem compara ao assumido há quatro anos quando Batistella ‘jogou fora’ um nome com 18 anos de história para se tornar fraqueado da Bluefit. Antes ele foi proprietário da Academia Trainers, idealizada em uma disciplina curricular do curso de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM). “Na faculdade, em 1997, fiz um estudo para abertura de uma academia numa disciplina de elaboração de projeto e em 1999 coloquei em prática”.

Em 2018, Batistella aceitou o desafio da Bluefit - segunda maior rede de academias do Brasil – para ser o primeiro franqueado. “Trocamos uma marca forte e própria por outra nova e pouco conhecida na época. Fizemos um retrofit sem fechar as portas, trocamos equipamentos e layout, fizemos investimentos, baixamos os valores das mensalidades e agregamos serviços. Não foi uma decisão fácil, mas acreditei, apostei no projeto e não me arrependo”. 

Hoje a rede conta com mais de 120 unidades no país, mesmo com o forte impacto da pandemia. Na unidade maringaense, após o primeiro lockdown, o retorno ocorreu com 60% da base média de clientes ativos. O índice subiu entre 5% e 10%, mas voltou a cair para 50% depois do segundo lockdown imposto ao setor. “Em agosto começamos a recuperar em torno de 10%, e cremos que com a vacinação e com a redução dos casos e das restrições devemos finalizar 2021 com pelo menos 75% da média normal. Voltar aos 100% só após o retorno das aulas presenciais na UEM”, prevê. 


Retomada do turismo 

O cenário atual também traz boas-novas ao setor de turismo. Depois de mais de um ano acumulando prejuízos, a 9000 Agência e Operadora de Turismo, enfim, voltou a operar com saldo positivo desde junho. É um recomeço lento, mas significativo para quem teve as vendas zeradas no início da pandemia. 


Desde junho a 9000 Agência e Operadora de Turismo voltou a trabalhar com saldo positivo, conta Paulo Alves Pimentel: “as pessoas estão voltando a viajar, é um retorno gradativo”

Atuando desde 1991 no setor, Paulo Alves Pimentel diz não se lembrar de um cenário tão devastador. “Mesmo nas piores crises, o setor nunca tinha registrado quedas superiores a 30% ou 40%”. Ele calcula recuperação de 30% das vendas no comparativo com o período anterior à pandemia, quando as viagens, intercâmbios e retirada de vistos estavam em alta. 

“As pessoas estão voltando a viajar. É um retorno gradativo, porque ainda há receio e temor por parte de muita gente. Tem empresas dando viagens de premiação para funcionários com bom desempenho. Aos poucos as pessoas vão criando coragem”. 

Ainda assim, pelo menos por enquanto, Pimentel não acredita que o setor voltará a atingir os patamares anteriores à pandemia. A vontade de viajar, mesmo dentro do país, também esbarra nos elevados preços das passagens. “Por causa das remarcações, muita gente que tinha comprado pacote antes da pandemia está viajando agora. Por isso os aeroportos estão lotados. Mas são valores que já foram pagos. Então os lugares que sobram nos aviões estão caros”, explica o empresário. 

Aliás, foi o trabalho de remarcação que ocupou a equipe de colaboradores da agência entre março e dezembro de 2020. Houve casos em que a data chegou a ser alterada cinco vezes. Foram mais de mil reservas remarcadas ou pedidos de reembolso. “Foi trabalhoso porque não se sabia quando as viagens poderiam ser remarcadas. Trabalhamos para dar o melhor atendimento ao cliente, sempre na tentativa de que ele remarcasse e não cancelasse até porque o governo editou uma medida liberando o reembolso após um ano”. 

Pimentel conta que, em alguns casos, chegou a abrir mão da comissão e fez o reembolso integral ao cliente. Mesmo assim, a agência conseguiu suportar os percalços sem fazer demissões ou recorrer a empréstimos. 

Hoje operando em modelo híbrido, com os colaboradores se revezando no atendimento presencial e online, o empresário espera um crescimento gradual nas vendas nos próximos meses e acredita sair fortalecido pelo atendimento prestado aos clientes. “Quem havia comprado pacotes em sites teve mais dificuldade em remarcar as viagens do que aqueles que compraram em loja física com atendimento presencial”.


É hora do sim

“O ano de 2022 será intenso. Estamos felizes e confiantes”, diz a organizadora de eventos Paula Abeche Soriani, apostando na demanda reprimida do setor desde março de 2020, em especial de casamentos. Embora os eventos tenham sido liberados, muitos casais que adiaram o tão sonhado sim preferem esperar. “A maioria quer aguardar acreditando numa flexibilização maior das regras e, também, pensando na segurança dos convidados”, explica a proprietária da empresa de assessoria e produção de eventos que leva o nome dela e está no mercado desde 2012. 


Mesmo enfrentando “meses exaustivos”, Paula Abeche Soriani investiu na troca de endereço, apostando na retomada dos serviços de assessoria e produção de eventos

Ainda assim, há motivos para comemorar. Afinal, depois de um longo período, a empresa voltou a realizar casamentos – com número restrito de convidados – e principalmente a receber pedidos de orçamentos de novos clientes. Por mais de um ano, a organizadora trabalhou exclusivamente remanejando datas e negociando com fornecedores. 

“Durante a pandemia, as demandas dos clientes contratados aumentaram. Eles queriam respostas que, infelizmente, não tínhamos. Cada cliente tinha entre 20 e 30 fornecedores, com os quais tivemos que negociar. Os remanejamentos são complicados, ainda mais com tanta incerteza. Foram meses exaustivos”, conta. 

Desistir, entretanto, nunca passou pela cabeça de Paula. Tanto que durante a pandemia ela reformou o escritório pensando em garantir mais comodidade e segurança aos clientes nesta retomada. Hoje os atendimentos já são feitos presencialmente no novo espaço na rua Neo Alves Martins. 

“A pandemia devastou nosso setor. Mas nunca pensei em desistir porque lutei muito para chegar aqui. E também porque acredito no casamento, que é um momento importante para os casais. Sempre tive fé que este momento ia passar e quando passasse haveria muita demanda”. 

Antes da pandemia, Paula organizava de três ou quatro casamentos por mês, com o apoio de até seis colaboradores na data do evento. O contrato de assessoria inclui desde a escolha da data, passando pela negociação com os fornecedores aos mínimos detalhes da cerimônia. E agora também a segurança dos convidados. 

Para tanto, os eventos seguem protocolos rigorosos. O salão, por exemplo, é setorizado por núcleo familiar. O cardápio foi alterado, já que a tradicional mesa de frios não oferece tanta segurança. Mudaram também a forma de recepcionar o convidado e de servir os docinhos. 

“Foram muitas mudanças e acredito que algumas vieram pra ficar, como as normas de higiene. No começo houve certa resistência, principalmente pelo uso da máscara. Agora a aceitação está tranquila. Respeitamos as exigências porque a festa precisa ser um momento feliz”.

Pensando em aumentar a segurança, Paula diz que o setor sugeriu ao poder público a exigência de testagem em massa em eventos e está aguardando a resposta. “Torço para que a vacinação se mostre forte e potente contra o coronavírus, e que os números de casos e mortes continuem caindo, para que a nossa retomada seja constante, e não momentânea”.