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Para além do combustível e com viés sustentável

Para além do combustível e com viés sustentável

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Meire e Robert Fagundes, da Eletro1000: “sabíamos que mais cedo ou mais tarde essa realidade chegaria ao Brasil”

Completar 18 anos, tirar a carteira de motorista e adquirir um veículo nem sempre fazem parte dos planos de jovens brasileiros. O rito de passagem para a vida adulta tem sido acompanhado de outras prioridades, segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). O número de pessoas habilitadas com até 30 anos caiu 7% entre julho de 2019 e julho de 2021, saindo de um total de 16,1 milhões de motoristas para 15 milhões. A queda no interesse por dirigir, no mesmo período, é ainda maior entre jovens de 18 e 24 anos, com redução de 23%. 

Entre os motivos para a falta de interesse estão os altos custos de manutenção dos veículos e o preço dos combustíveis, mas não é só. Estilo de vida que prioriza a sustentabilidade e a praticidade dos meios alternativos tem conquistado esse público. Foi pensando nisso que Meire e Robert Fagundes iniciaram, há quase um ano, as atividades da Eletro1000, loja de materiais elétricos que também vende equipamentos de mobilidade sem combustão. 

“Tivemos a oportunidade de morar nos Estados Unidos e no Japão onde os transportes elétricos fazem parte da rotina há mais tempo, então, sabíamos que mais cedo ou mais tarde essa realidade chegaria ao Brasil, como de fato chegou, impulsionada pela pandemia. Queríamos fazer parte deste movimento”, afirma a empresária, que tem visto crescer o interesse pelos elétricos. “Além da economia, temos visto pessoas sensíveis às questões ambientais que estão inclusive deixando de ter carro para investir em transporte alternativo”, diz. 

Os próprios empresários usam uma scooter elétrica para fazer as entregas da loja e trajetos rotineiros. “Mais do que vender esses equipamentos, acreditamos e queremos fazer parte da revolução na mobilidade urbana. O uso da energia renovável não é mais algo para o futuro, mas uma realidade e necessidade do presente”, afirma. 

A loja, que fica na avenida Mandacaru, conta com cinco modelos de scooter com opção de um ou dois assentos. O modelo mais simples custa em torno de R$ 9 mil, mas modelos com mais acessórios podem chegar a R$ 17 mil. Quando os assuntos são velocidade e autonomia, as scooters demonstram bom desempenho: a velocidade pode chegar a 75 quilômetros por hora com 50 de autonomia. “Mesmo que seja possível correr tudo isso, sempre orientamos e prezamos pela segurança de quem está conduzindo, por isso, nossa recomendação é usar capacete e manter velocidade segura de até 50 quilômetros por hora em locais apropriados”, afirma. 

A loja comercializa também patinetes elétricos, que são opções compactas. Na Eletro1000 os preços partem de R$ 2,9 mil com autonomia entre 20 e 25 quilômetros e velocidade de até 25 quilômetros por hora. “Os transportes elétricos são sinônimo de economia, liberdade, praticidade e sustentabilidade, mas entre essas vantagens a que mais gosto de ressaltar é a questão ambiental. Tanto as scooters quanto os patinetes têm zero emissão de gás carbônico”, diz. 


Alta de 40%

Há 30 anos no mercado de bicicletas, a Dias Bike viu o número de vendas dar um salto de até 40% nos últimos dois anos. O aumento expressivo, segundo o vendedor Samuel Pereira dos Santos, se deve à mudança de mentalidade de parte dos consumidores, que foi provocada pela pandemia, com o desejo de usar transportes com menos aglomeração. Segundo a Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas), o aumento nas vendas aconteceu em todo o país e alcançou 50% em 2020 na comparação ao ano anterior. 


Samuel Pereira dos Santos, da Dias Bike: vendas de bicicletas convencionais e elétricas cresceram 40% nos últimos dois anos

Na Dias Bike, a venda de modelos elétricos seguiu a proporção dos modelos convencionais, com até 40% de alta desde 2019. Hoje a empresa tem no mix oito modelos elétricos, mas a primeira aposta neste segmento foi em 2015, com uma opção de bicicleta com bateria de chumbo. “Somente há um ano decidimos investir em modelos mais modernos, que além de design diferenciado, contam com bateria de lítio, que é mais eficiente. Nossa intenção foi justamente atender à demanda crescente”, afirma Santos.  

O foco da empresa, que tem oito lojas no Paraná, são as bicicletas, tanto que dos modelos convencionais são aproximadamente 40 opções somente na loja de Maringá. Entre os elétricos a loja mantém o foco nas bikes. “Temos somente um modelo de scooter e optamos por não investir em patinetes elétricos neste momento, mesmo sabendo que a procura tem sido alta”, explica. “Queremos ser referência em tudo o que se refere ao universo das bicicletas, elétricas e convencionais”, diz. 


O que diz a legislação

O uso de meios de transportes elétricos é recente na mobilidade urbana, por isso, ainda carece de regulamentação específica do órgão de trânsito estadual. Por enquanto, o que valem, segundo o secretário de Mobilidade Urbana de Maringá, Gilberto Purpur, são as resoluções do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e as normativas do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). “De acordo com a legislação, bicicletas elétricas, scooters e miniscooters são consideradas ciclomotores, portanto, é necessário ter Autorização para Condução de Ciclomotores (ACC) ou Carteira Nacional de Habilitação na categoria A e usar capacete durante o uso”, afirma. 


A Secretaria de Mobilidade Urbana de Maringá tem estudado a normatização de veículos sem emplacamento, e ainda não há fiscalização e penalidade, segundo Gilberto Purpur

Além disso, segundo o secretário, por se enquadrarem como ciclomotores, a circulação é proibida em calçadas e ciclovias, devendo ser feita pela direita da pista de rolamento, preferencialmente no centro da faixa à direita ou no bordo direito da pista, sempre que não houver acostamento ou faixa própria. Purpur explica ainda que os ciclomotores devem ser fiscalizados conforme as regras do Código de Trânsito Brasileiro e devem, portanto, ser registrados e licenciados no órgão executivo de trânsito estadual (Detran) para trafegar na via. “Esses veículos também devem possuir itens obrigatórios de fábrica, como espelho retrovisor, farol dianteiro, lanterna traseira, velocímetro, buzina e pneus que ofereçam condições mínimas de segurança”, diz.  

Já as bicicletas dotadas de motor elétrico auxiliar, ou seja, quando o acionamento e o funcionamento do motor são durante o ato de pedalar, também chamado de pedal assistido, não se enquadram como ciclomotores, sendo permitida a circulação em ciclovias e ciclofaixas com velocidade máxima de 25 quilômetros por hora e uso de capacete. 

Os patinetes elétricos também não são considerados veículos no CBT, portanto, a recomendação é que não circulem pelas vias, ruas ou avenidas. É permitido circular por ciclovia e nas calçadas respeitando o limite de velocidade de seis quilômetros por hora em áreas de pedestres e de 20 quilômetros por hora nas ciclovias. “Nas calçadas é de bom hábito circular desmontado do patinete, para prevenir acidentes com  pedestres”, orienta. 

Neste caso, por se tratarem de meios que não exigem emplacamento, cabem aos órgãos executivos de trânsito municipais regulamentar a circulação. A Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) tem estudado a normatização, mas sem prazo para iniciar. Assim, por enquanto, o município fica impedido de realizar a fiscalização ou de aplicar penalidade para quem descumprir a legislação. 


Veículos premium 

A busca por economia e sustentabilidade também chegou ao universo dos veículos de alto padrão. De 2019 para 2020 a BMW registrou crescimento de 209% na venda de modelos híbridos e elétricos, o que representa 16% do faturamento da marca no país. Segundo o gerente na BMW Barigui em Maringá, Danilo Carvalho, a participação dos elétricos e híbridos no faturamento dobrou. “Em 2019, essas unidades representavam 8%. Hoje a realidade é diferente e estamos crescendo mais do que a média do mercado”, diz. 


Em um ano vendas de modelos híbridos e elétricos tiveram alta de 209% na BMW, conforme o gerente Danilo Carvalho; marca mantém estações de carregamento na cidade

A marca tem apostado nas vendas dos elétricos e híbridos, tanto que tem a meta de em 2030 esses modelos representarem 50% das vendas em todo o mundo e traçou como diretriz suspender a fabricação de modelos à combustão em todo o mundo até 2030. “Atualmente os veículos a diesel fabricados pela BMW não vêm para o Brasil, são comercializados apenas nos Estados Unidos e Europa”. 

Em Maringá, a concessionária oferece seis modelos que variam de R$ 300 mil a R$ 655 mil. A autonomia, na função 100% elétrica, pode chegar a 350 quilômetros ou 80 na função híbrida. “Para o início de 2022 temos a previsão do lançamento do modelo IX, que é um SUV 100% elétrico com autonomia de 500 quilômetros”, diz. 

Com mais motoristas adquirindo modelos elétricos e híbridos, o número de estações de carregamento tem aumentado. Hoje, em Maringá, a BMW conta com pontos no Maringá Park Shopping, Avenida Center e Mercadão e tem projetos de instalação no Supermercado Angeloni, no Country Club e no aeroporto. 

Segundo Carvalho, a vantagem da wallbox, que é a estação da BMW, é o tempo de carregamento. “Em uma tomada comum, a carga completa leva cerca de 12 horas, já no equipamento, que funciona como um conversor de energia, leva quatro horas”, afirma.