Artigos

Negócios com um toque feminino

Negócios com um toque feminino

55
visualizações

Odilia Dossi perdeu a mãe ainda criança e viu a fome bater à porta; hoje é sócia de uma factoring, onde começou como estagiária: “ou a gente vencia, ou vencia. Não tínhamos escolha”

O Paraná possui 549.572 empresárias, sendo que 45% atuam no setor de serviços. Do total de negócios no estado, elas estão no comando de 34%. Uma característica das paranaenses é a dedicação para fazer a empresa própria dar certo, tanto que o tempo investido ultrapassa 40 horas por semana para 47% das empreendedoras. Os dados são do estudo do Sebrae intitulado ‘Empreendedorismo Feminino no Brasil’, que traçou o perfil das empresárias brasileiras até o terceiro bimestre de 2020, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

No universo de mulheres empresárias, a superação parece ser outra característica comum. É o que três empreendedoras de Maringá deixam evidente quando contam suas histórias. Uma delas é Odilia da Silva Dossi, empreendedora e sócia de uma factoring (fomento mercantil ou comercial).

Depois de perder a mãe aos três anos, Odilia foi criada pelo pai e irmãos, no estado de São Paulo. A fome bateu à porta da família de 12 filhos e, para ajudar, aos 12 anos ela começou a trabalhar como empregada doméstica. “Ou a gente vencia, ou vencia. Não tínhamos escolha. Tive muito respaldo dos meus irmãos”, diz.

A empresária sempre teve sede de mudança e contou com o apoio do marido na jornada empreendedora. Trabalhou como ajudante de costureira até que conquistou um emprego como bancária. Ainda em São Paulo, cursou desenho arquitetônico, depois, na década de 1990, mudou-se com o marido para a Cidade Canção para trabalhar como desenhista. Um ano depois iniciou Administração na Universidade Estadual de Maringá (UEM), período em que foi secretária e gerente em um shopping atacadista, de onde saiu para assumir um estágio na área de administração. “Tive poucos contratos em carteira. Com 32 anos entrei na UEM. Surgiu uma oportunidade de estágio em uma empresa de factoring, onde fui secretária. Com o tempo, assumi como sócia gerente”, conta. 

Odilia está com o sócio na empresa desde 2015 e responde pela área comercial. “Foi tudo de degrau a degrau. Sou grata à minha família e a todas as pessoas que me deram apoio. O ACIM Mulher também ajudou, não tem como não agradecer”, destaca ela, que integra o conselho de mulheres empresárias e executivas da Associação Comercial. 

Atualmente, a pandemia impõe as principais preocupações. A empreendedora perdeu clientes, mas não perdeu a vontade de lutar e superar mais esse desafio. “Não há nada a lamentar, mas a agradecer a Deus. Acredito que não é por acaso que estou nesta jornada”, diz. 

Coragem 

Do italiano, Sorelle Dolci significa ‘doces irmãs’. É este o nome da confeitaria afetiva que Michele Ghezzi abriu em parceria com a irmã, Cris, em 2018. Atualmente, Michele segue sozinha no negócio, que é a realização do sonho de ter uma empresa familiar. A decisão de empreender, no entanto, exigiu a quebra de crenças, como a de que arriscar não era opção, já que um emprego significa renda mensal garantida. Mas foi um duro desafio que provocou mudanças profundas na forma de Michele ver a vida. No final de 2017, ela foi diagnosticada com câncer de mama e recebeu o primeiro atestado para iniciar o tratamento. “Naquele momento me perguntei: ‘Senhor não foi à toa que permitiu que eu tivesse essa doença, que propósito tem para mim?’. Rapidamente veio a resposta e decidi que não iria me abater, que procuraria fazer algo que estivesse ao meu alcance para tornar mais leve para mim, meu esposo e filha o ano mais difícil que passaria na vida”, conta. 


Depois do diagnóstico de câncer, Michele Ghezzi resolveu empreender, um sonho acalentado há anos e que deu origem à Sorelle Dolci, onde trabalham o marido e a sogra

Enquanto passava pelo tratamento, que incluiu quatro cirurgias, 12 sessões de quimioterapia e 35 sessões de radioterapia, Michele encontrou na gastronomia uma fonte de alegria. Logo procurou o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e fez um curso rápido de preparo e decoração de bolos. “Depois do curso, fui fazer um bolo confeitado e, surpreendentemente, saiu bem bonito, até para ser comercializado. Fiquei feliz e motivada. Definitivamente, encontrei o propósito. Durante o tratamento, segui fazendo cursos, me capacitando. Naquele ano, fiz bolo de aniversário para a família toda, meu presente era o bolo e desta forma aprimorei técnicas e desenvolvi habilidades.” 

Hoje a Sorelle atende por encomenda, com entregas ou retirada no local. A loja, no Jardim Dias, oferece bolos caseiros, confeitados e personalizados, doces, salgados, sobremesas e lembrancinhas comestíveis. Michele trabalha na cozinha, e o esposo e a sogra assumem o segundo turno na empresa. 

A satisfação é uma mistura de ter vencido a doença, aberto o próprio negócio e de ver a vida mudar para melhor. É isso que dá ânimo para Michele aprender sobre gestão financeira, marketing e inovação na hora de vender. “Sou uma gestora que precisa criar processos, ter disciplina e cuidar do próprio negócio. E tenho planos. Ainda quero uma confeitaria tradicional, familiar. Hoje posso dizer que vivo a minha paixão”, completa. 


Sonho

Vera Lucia da Silva veio de Londrina para Maringá, em 2020. Lá, como microempreendedora individual, ela produzia para uma facção, onde já havia ficado dois anos como pilotista, com uma média de 2,5 mil camisas por mês. Entretanto, um problema financeiro na indústria afetou de forma significativa o trabalho de Vera, que decidiu prestar serviços de mão de obra em Maringá. “Sou divorciada e sempre tive vontade de mudar para Maringá. No recomeço, tomei a decisão de concretizar esse plano, com o apoio dos meus filhos”, conta. 


Ao mudar para Maringá, Vera Lucia da Silva deu início à marca própria de camisaria e se prepara para lançar uma linha de moda feminina

Em Maringá, Vera dedicou-se ao sonho de fazer dar certo uma marca própria, a V-Kmisaria, no mercado desde 2019. Usou o Mercado Livre, o Enjoei e outras plataformas para vender camisas. A procura e o feedback deram ânimo para seguir em frente. Atualmente, ela ainda presta serviço de mão de obra, mas já comercializa 150 camisas por mês. “Em março, veio a pandemia e fechou tudo. Não conhecia nada, não tinha rede de contatos, mas, pela internet, consegui clientes em São Paulo, Mato Grosso, Rio de Janeiro, até as pessoas começarem a pedir novamente”, diz Vera.

A empreendedora comenta que por causa da pandemia não teve tempo de visitar lojas para apresentar o produto, mas a ideia é expandir as vendas e contratar um vendedor. Hoje ela trabalha sozinha, mas contrata ajudantes, quando necessário. O serviço de modelagem e corte são feitos por outros profissionais. 

Agora o foco está nos preparativos para lançar um novo segmento de roupas, a modinha feminina. Vera já está planejando fotos com modelo para o Instragram e outras redes sociais, enquanto fabrica as primeiras peças. “Consegui uma linha de crédito via Noroeste Garantias, investi em maquinário, tecido e registrei minha marca, que era um sonho”, conta. “Foi um desafio fortalecer uma marca em plena pandemia. Mas tenho fé e disposição para lutar. Além disso, estou esperançosa com o avanço da vacinação em Maringá e que isso possa trazer tempos melhores”, frisa.

ACIM Mulher: aprendizado
e rede de apoio 

Desde 1985, Maringá conta com uma frente de trabalho composta inteiramente por mulheres, cuja missão é “representar os interesses e fortalecer as empresárias de Maringá, promovendo benefícios à comunidade”. Braço feminino da Associação Comercial, o ACIM Mulher – Conselho da mulher empresária e executiva, é integrado por 50 mulheres de diversos segmentos e representantes de entidades.
Segundo a presidente do ACIM Mulher, Cláudia Michiura, o trabalho consiste em promover eventos que valorizam e capacitam mulheres que estão à frente de seus negócios. O conselho segue um calendário anual de eventos, que inclui, por exemplo, o prêmio ACIM Mulher para “valorizar a mulher empresária, voluntária e executiva”.
Outras ações são visitas técnicas nacionais e internacionais para buscar modelos de gestão e exemplos do dia a dia de negócios comandados por mulheres. “Também são feitas visitas técnicas em empresas e palestras focadas em gestão. Além disso, temos eventos beneficentes, já que além de promover o aprendizado, doamos tempo e recursos para quem precisa. Estamos ainda inseridas na prefeitura e atuamos em diversas frentes de trabalho da ACIM”, acrescenta. 
Para lidar com os desafios impostos pela pandemia, o conselho passou a realizar reuniões virtuais com a participação de palestrantes que capacitam as mulheres para cuidar e aprimorar os negócios durante este período. O grupo se reúne semanalmente.



Cláudia Michiura, presidente do ACIM Mulher: conselho trabalha para fortalecer as empresárias de Maringá